A Covilhã

 

Reclinada numa das vertentes da Serra da Estrela, a Covilhã, povoação possivelmente de fundação romana, terra natural de grandes pastos, encontra na pastorícia a sua força primitiva.

Tece a lenda uma teia de amor entre a moura Florinda e o seu sedutor Rodrigo, o último rei dos Godos, e uma rede de vingança do conde Julião, pai de Florinda, governador de Ceuta, ao permitir a entrada dos Mouros na Península, pelo ano de 711. Refugiada nos Montes Hermínios, Florinda impôs o respeito aos Mouros, mercê da sua astúcia e formosura, e deles recebeu o nome de Cava. Esse lugar ficaria conhecido por Cava Juliana, de onde resultaria o nome Covilhã.

Historicamente, a Covilhã teve o seu 1º foral em 1186, dado pelo Rei D. Sancho I, formando um alfoz que ia do extremo Norte da Serra da Estrela até às Portas de Ródão, englobando o espaço hoje ocupado pelos distritos da Guarda e Castelo Branco.

A importância dada à propriedade (para permitir a fixação de homens à terra e promoverem a sua defesa), a liberdade dada aos seus gados para poderem pastar noutras terras, e a autonomia aos proprietários na exploração das suas terras são pontos primordiais desse foral.

Correndo pelos declives que enformam a cidade, as ribeiras foram sempre um motor de transformação, um berço incessante de trabalho. Com inovação e esforço, a Covilhã foi impulsionada para um lugar cimeiro na indústria de lanifícios, aparecendo, dentro e fora do território nacional, como a Manchester portuguesa.

Incrustada na encosta da Estrela, a Covilhã recebe da montanha os obstáculos dos acessos e das ligações, mas também a força, a dureza e a firmeza intemporal da madre terra, revestida, no Inverno, pelos véus diáfanos da neve.

Desfazendo muralhas para com as mesmas pedras construir a Real Fábrica de Panos, depois adaptada a espaço universitário, a cidade foi usando marcas do passado para construir novos espaços construtores de caminhos do futuro, foi destruindo muralhas exteriores para, mudando o lugar das suas pedras, estabelecer novos alicerces impregnados de passado, preservando, com elas, o seu espírito mais íntimo: a dureza natural, a riqueza e a força humanas, um carácter que personifica o desafio permanente da superação das suas limitações.

É esta mesma dureza que brota também dos seus monumentos mais importantes: Capela de São Martinho, Capela do Calvário, ruínas da Muralha.

De entre os seus filhos, são exemplos personificados daquela matriz, entre muitos outros, Pêro da Covilhã, pioneiro e audaz no contacto com o longínquo desconhecido, que percorreu e descreveu, permitindo, com isso, a chegada, por via marítima, dos portugueses à Índia; Mateus Fernandes, pela capacidade de, pela arte, materializar o sonho (Capelas Imperfeitas (Incompletas), da Batalha), e de lhe dar um cunho nacional (estilo manuelino); e Frei Heitor Pinto, pela integridade de carácter feito de um imenso e verdadeiro saber, logo, avesso ao comodismo e à sua fácil obtenção pelos caminhos da subserviência, da ambição e da falta de integridade.

Ao longo dos tempos, muitos foram os problemas encontrados pela Covilhã e os seus homens: a agressividade da natureza, tratados adversos, crises várias, a globalização, mas sempre os covilhanenses contaram consigo na superação de todos os obstáculos e na construção de novos caminhos.

Até hoje, à agressividade da encosta e ao isolamento da interioridade responderam os homens com escadarias, pontes e túneis; no futuro, novas ligações se construirão, na defesa e na demonstração de que interioridade não significa menoridade.

Na resolução de problemas, sempre o trabalho, a força de carácter, a inovação e a imaginação foram pedras de toque da cidade.

Covilhã e Matemática, Profmat 2004, talvez porque, afinal, e glosando o poeta, “… quão semelhante / Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!”.

Sejam, pois, bem-vindos!

Aníbal Mendes
 

 

 

 

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