Ensaio
Histórico sobre a Origem e (1819)
Os discípulos de Pedro Nunes
Não faltou quem atribuísse a Pedro Nunes a composição do Roteiro marítimo da Índia e do Brasil. Verosímil é que ele deixasse algumas linhas escritas sobre um assunto tão importante, e para cujo desempenho o seu cargo de cosmógrafo-mór do reino lhe facilitava os melhores, talvez únicos meios, que então havia para a composição de tal obra, mas é certo que o primeiro Roteiro impresso de que tenho notícia é o que, no seu Tratado de hidrografia e Exame de pilotos, publicou Manoel Figueiredo, natural de Torres Novas, que fora um dos sucessores de Pedro Nunes, naquele importante ofício, e que talvez não fizesse mais do que juntar ao trabalho do seu predecessor, aquelas observações e notícias, cujo conhecimento o exame das derrotas das navegações feitas em seu tempo lhe facilitasse. Não é menos provável também que a reputação de Pedro Nunes contribuísse poderosamente para que o nome de Manoel de Figueiredo chegasse ao conhecimento dos sábios estrangeiros que o têm contado, em o número dos matemáticos Portugueses dignos de memória (f), sendo na verdade muitos escassos os seus títulos para ter tido em tal conta.
Muito mais merecedor de honrosa duração seria o nome de André do Avelar, que no ano de 1592 entrou na Universidade de Coimbra, no exercício de lente da cadeira de matemática que Pedro Nunes com tanta distinção ocupara. Pelo menos o que nas obras de Manoel de Figueiredo se lê digno de mais atenção, o que lhe deu o maior renome, e aonde na verdade reduz alguma erudição física e matemática, é tudo copiado ou extraído do Repertório dos Tempos, que Avelar havia publicado pela primeira vez no ano de 1585, e que ele recopilou na sua Cronologia.
É certo que uma e outra destas duas obras se encontram, com aprovação e assentimento, todas as quimeras de Alfragano sobre distâncias dos diversos céus, em que os antigos astrónomos imaginaram os astros engastados; e sobre a grandeza e figura das estrelas relativamente ao globo terrestre; assim como também todos os sonhos dos antigos filósofos sobre as causas das marés, sobre a natureza e número dos cometas, sobre auroras boreais, e não menos uma boa parte das visões e extravagâncias da astrologia judiciaria, mas também não é menos certos que na obra de Avelar reluzem de quando em quando alguns clarões de uma filosofia mais luminosa; e que entre um grande número de sinais equívocos ou falsos de mudança de tempo, de ventos, chuvas, calmarias e tempestades; fenómenos nada indiferentes, principalmente para os navegantes; se encontram apontados alguns, que seria conveniente verificar por observações repetidas notando-as na tabuadas meteorológicas.
Os discípulos mais notáveis de Pedro Nunes foram o Infante Dom Luiz, filho d'El Rei Dom Manuel, e o famoso Dom João de Castro IV, vice-rei da Índia. Do merecimento do primeiro são constantes testemunho os elogios de seu mestre nas dedicatórias das obras que lhe ofereceu, e o seriam, se ainda existissem, os dois tratados que escreveu, um acerca da quadratura do círculo, e o outro sobre proporções e medidas, matéria que a Pedro Nunes deveu tão particular predilecção, como ele mesmo confessa em seu livro de Algebra. Quanto ao segundo, restam-nos dele duas obras, a primeira é o roteiro da viagem que fez ao Mar Vermelho em companhia de Dom Estevão da Gama, o qual existe impresso, posto que não devesse esta distinção, aos desvelos dos compatriotas de seu autor, e o segundo é o semelhante roteiro da viagem que fez para a Índia com o governador Dom Garcia de Noronha, ao qual juntou a descrição hidrográfica da Costa de Malabar que está situada entre Goa e Diu (i); ambas as quais o acreditaram na opinião dos doutos por discípulo digno de tal mestre.
João Franco Barreto, na sua Biblioteca manuscrita, faz expressa menção de outro discípulo de Pedro Nunes, chamado Nicolau Coelho, o qual a não ser pessoa que por seu merecimento fizesse honra a seu mestre, não seria naquela obra nomeado, e que portanto é verosímil que fosse, como conjectura o beneficiado Francisco Leitão Ferreira, Fr. Nicolau Coelho do Amaral, religioso Trino, primeiro reitor do colégio de Coimbra, o qual, na ausência de Pedro Nunes, o substituía na regência da Cadeira de matemáticas, e que compôs uma obra que naquele tempo lhe deu não pequeno crédito, a qual intitulou: Chronologia, seu Ratio temporum.
Notas de rodapé
(f) Montucla.. Hist. des Math., tom.2; Supplément contenant l'histoire de lanavigation, pag. 657.
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