Ensaio Histórico sobre a Origem e   

      Progressos da Matemática em Portugal

(1819)


Francisco Garção-Stockler


Alguns aspectos da vida de Pedro Nunes

Que tempo Pedro Nunes gozou da bem merecida reputação que suas obras lhe adquiriram é coisa de que os nossos escritores se descuidaram de deixar-nos notícia, porém Dom Nicolau António na sua Biblioteca Hispânica, e após ele, Lalande, e Bailly nos referem que o nosso geómetra falecera em ano de 1577 aos 85 de sua idade. Quando porém aos prémios que obteve, e aos empregos que serviu, as notícias que pude achar se reduzem, a que depois de ser provido pelo Senhor Rei Dom João III no lugar de cosmógrafo do reino em o ano de 1529, fora no de 1530 nomeado para reger a Cadeira de Filosofia da Universidade de Lisboa, a qual efectivamente ocupou por espaço de três anos. Que no ano de 1544 passará a reger a de Matemática, já depois de trasladada a Universidade segunda vez para Coimbra, na qual dezoito anos depois obteve sua jubilação. Que o mesmo monarca o tivera em tão alto conceito e estima, que o elegera para mestre de seus irmãos e neto, e que no ano de 1547 o honrara, conferindo-lhe o cargo de Cosmógrafo-mór de reino que então criara de novo, (z) acrescentando-lhe mais dez mil reis ao ordenado ou mantimento de quarenta mil reis que já tinha , como simples cosmógrafo (a). Treze anos antes, em 1534, lhe havia El-Rei concedido, em remuneração dos seus serviços, até então praticados, uma tença de quatro moios de trigo anuais (b), mercê de sua natureza pessoal e vitalícia, mas que a benignidade do Senhor Rei Dom Sebastião fez transcendente à sua família, por alvará passado em Lisboa aos 14 de Novembro de 1564, concedendo-lhe a graça de dispor por sua morte, a benefício de sua mulher e filhos, de três quartos da sua importância, bem como dos três quatros de outra tença de quarenta mil reis anuais, que lhe havia concedida em retribuição dos serviços que fizera ao Infante Dom Luiz, na qualidade de seu mestre de matemática e de filosofia (c).

É certo se esta graça chegou a verificar-se, por quanto dez anos depois, por um novo alvará de lembrança de Lisboa aos 12 de Agosto de 1574, lhe fez o mesmo Soberano a mercê de poder repartir por seus filhos trinta mil reis e um moio de trigo, tirados dos cinquenta mil reis, e dos quatro moios de trigo que já desfrutara, graça esta que assaz claramente indica não ser já então viva a consorte do nosso geómetra, e haver por isso caducado a primeira mercê, em que ela era contemplada. Entretanto pode muito bem ser que o desejo de adoçar a justa mágoa de um vassalo tão benemérito, ocasionada pelo próximo falecimento de sua mulher, determinasse o coração generoso do Senhor Dom Sebastião a ampliar aquela primeira graça, concedendo a Pedro Nunes a liberdade não só de fazer dela a benefício de seus filhos, mas de poder também dispor a favor deles do último quatro moio de trigo, que lhe haviam sido concedidos em remuneração de seus relevantes serviços, e dos três quintos de seu ordenado de cosmógrafo-mór (d).

As últimas mercês feitas a Pedro Nunes de que pode alcançar notícia documentada, foram concessão que o Senhor Rei Dom Sebastião lhe fez de oitenta mil reis de tença por tempo de dois anos, em atenção a ter sido chamado à corte para onde partiu em 11 de Setembro de 1572, e a prorrogação desta mesma graça por mais outros dois anos, em contemplação à maior demora que devia ter (e). Não pude porém descobrir qual fosse o motivo deste seu chamamento à corte, nem se por ventura tornou a voltar para Coimbra, aonde se achava estabelecido com a sua família, ou se faleceu em Lisboa separado dela.

O que é certo, é que todo o seu merecimento não foi bastante para que deixasse de encontrar, entre os seus mesmos compatriotas, um impugnador acérrimo de seus escritos, este foi Diogo de Sá, cavaleiro Português, a quem o serviço militar , em que se distinguira por muitos anos na Ásia, não obstou a que adquirisse uma vasta erudição, muito superior ao que era esperado de um soldado. Persuadido de que nos livros do nosso geómetra sobre navegação havia erros ou descuidos repreensíveis, e sem advertir que as suas soluções geométricas dos problemas hidrográficos são meros limites racionais, a cuja perfeição a prática das ciências navais não pode aspirar, e que por isso mesmo são a sua guia a norma mais segura; escreveu contra ele um pequeno tratado, o qual se fez célebre pelo nome do geómetra que ali era impugnado, do que pelo seu merecimento real. Diogo de Sá o fez imprimir em Paris no ano de 1549, e o dedicou a El-Rei Dom João III; mas, nem por aparecer no público debaixo de tão venerado auspício, mereceu que Pedro Nunes lhe respondesse. Talvez que o mesmo respeito devido a tão augusto nome o embargasse de por patente a debilidade dos argumentos se sue adversário.

 


Notas

Notas de rodapé

(z) No Arquivo da Torre do Tombo em o livro 55 da Chancelaria do Senhor REI Dom João III, a f. 65, se acha registada a carta de cosmógrafo a Pedro Nunes em Lisboa na data de 22 de Dezembro de 1547.

(a) Ainda que com o emprego de simples cosmógrafo, Pedro Nunes a princípio só tivesse o ordenado, ou mantimento de vinte mil reis, como vimos em a nota (x). O senhor Rei Dom João III lhe havia acrescentado outros vinte mil reis por provisão passada em Évora aos 23 de Agosto de 1534, a qual se acha registada em o livro 9º da Chancelaria de dito Senhor Rei, a folha 99 verso.

(b) Desta tença se lhe passou o competente padrão em Évora aos 7 de Outubro, o qual se acha registado em o livro da Chancelaria do supra mencionado Rei a folha 269 verso.

(c) No livro 14 da Chancel. de El Rei Dom Sebastião a f. 352, se acha registada o alvará de lembrança da mencionada graça, o qual é datado de Lisboa aos 14 de Novembro de 2564. Nele se faz referência à tença de quarenta mil reis que Pedro Nunes havia sido concedida em contemplação aos serviços que fizera ao Infante Dom Luiz.

(d) Este alvará de lembrança acha-se registado no livro 35 da Chancelaria de Senhor Rei Dom Sebastião, a f. 22. Contém ele uma graça adicional há que já se havia feito a Pedro Nunes dez anos antes. Ou é uma simples declaração da parte daquela primeira mercê, que devia unicamente pertencer aos filhos?... Se é um adicionamento à primeira graça, então os cinquenta mil reis, a que se refere o alvará, são os que constituíam o ordenado ou mantimento de cosmógrafo-mór; se porém é uma simples declaração, nesse caso houve engano em referir-se a mercê à quantia de cinquenta mil reis, devendo referir-se aos quarenta mil que constituem importância da tença mencionada em o primeiro alvará (31).

(e) O alvará pelo qual lhe foi concedida a primeira destas mercês se acha registado no livro 32 da Chancelaria do Senhor Rei Dom Sebastião, a f. 172 verso, refere o dia da partida de Pedro Nunes para Lisboa, como época do seu vencimento; e é datado de Évora aos 25 de Abril de 1773. O alvará da segunda mercê é datado de Lisboa aos 6 de Setembro de 1574, e acha-se registado no livro 34 de Chancelaria do mesmo Monarca, a f. 32.

Notas - Aditamento (Feito à nota (d) no ano de 1817)

(31) Dos apontamentos que, há vinte e três ou vinte e quatro anos, extrai do Real arquivo da Torre do Tombo, em companhia do Ilustríssimo Senhor José Correa da Serra, então secretário da Academia Real das Ciências de Lisboa, e hoje conselheiro de Sua Majestade, e seu ministro plenipotenciário junto do governo dos Estados Unidos da América setentrional, não pude tirar ilustrações bastantes para sair desta dúvida. Agora, porém que, no sétimo tomo das Memórias de Literatura da Academia Real das Ciências, leio uma muito circunstanciada notícia sobre a vida e obras de Pedro Nunes, escrita pelo meu douto amigo e consócio, o Ilustríssimo Senhor conselheiro António Ribeiro dos Santos [Memórias sobre a Vida e Escritos de Pedro Nunes]; e, entre os documentos por ele citados encontro, além de alguns outros, quase todos os que eu extraíra dos registos das chancelarias dos Senhores Reis Dom João III e Dom Sebastião, com alguma diversidade; não me permitindo a distância em que estou de Portugal, que eu para verificação da verdade, torne a consultar o sobredito arquivo, cumpre-me notar 1º, que o Senhor António Ribeiro dos Santos reputa a primeira carta de cosmógrafo do Reino passada a Pedro Nunes, não carta de simples cosmógrafo, mas sim de cosmógrafo-mor; no que me parece que S. Sª. padeceu equivocação; pois que a ser assim, nenhuma necessidade havia de se lhe passar nova carta em o ano de 1547; 2º que sua Senhoria diversifica de mim na ...


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