Ensaio
Histórico sobre a Origem e (1819)
Sobre os erros de Oroncio Fineu
anotações à sphera de Sacro Bosco
Tratado de Álgebra em Arithmetica e Geometria
Além destas obras publicou mais Pedro Nunes no mesmo ano do seu tratado sobre o erros de Oroncio Fineo, professor de matemáticas em Paris, o qual se lisonjeava de haver achado as soluções de todas as questões mais difíceis de geometria elementar, ou antes de diversas questões superiores ao alcance dos limitados princípios da geometria elementar, e que erradamente ainda então se julgavam pertencentes a ela, tais são a quadratura do círculo, a duplicação do cubo, a trissecção dos ângulos, e a inscrição geral de um polígono de qualquer número de lados dentro de um círculo. Mas quando Oroncio supunha ter feito o seu nome imortal com a publicação da sua obra, e por meio de uma nova edição dela esperar ainda mais a sua celebridade, o geómetra Português lhe mostrou que o seu livro não era mais, do que uma colecção de paralogismos, e por este modo tirando-lhe de todo a esperança de ser jamais contado em o número de geómetras, o condenou a ser para sempre considerado como miserável e alucinado quadrador.
No ano de 1562 se imprimiu em Veneza uma tradução latina de outra obra de Pedro Nunes, intitulada: Anotações à sphera de João de Sacro Bosco, a qual ele havia escrito em português provavelmente nos primeiro anos dos seus estudos; pois é, bem como a obra à que serve de comentário, notavelmente inferior a todas as outras que dele nos restam.
Cinco anos depois saiu à luz em Anvers o seu Tratado de Algebra em Arithmetica e Geometria, o qual tendo sido também escrito primeiro em português, foi depois no ano de 1564 vertido pelo próprio autor em castelhano; ou fosse pelo motivo que ele mesmo declara na sua dedicatória ao Cardeal Infante Dom Henrique; para que pudesse aproveitar a maior número de leitores, ou por efeito daquele geral pressentimento das futuras consequências da insidiosa política de Felipe II de Espanha, que determinou naquele tempo tantos homens de letras portugueses a escrever as suas obras na linguagem de nossos vizinhos, como se de nós não fizessem caso, ou nos fosse mais fácil entender o idioma dos Castelhanos, do que eles o nosso. Doía-se Pedro Nunes, de que os conhecimentos de álgebra fossem ainda tão pouco vulgares na Espanha, havendo mais de sessenta anos que Lucas de Burgo publicara a sua Summa de Arithmetica e Geometria, em a qual dera as primeiras noções deste novo ramo das matemáticas, e muito principalmente tendo-o, já depois, Cardano e Tartaglia tratado mais amplamente nos seus escritos; e por isso tomou a resolução de expor em linguagem vulgar aos Espanhóis os elementos de uma ciência tão importante. Custa porém a conciliar tanto zelo pelo progresso deste ramo das matemáticas na Espanha com o silêncio em que teve sepultada esta obra por mais de trinta anos.
O seu livro é o compêndio mais metódico e escrito com mais clareza, que até aquele tempo se publicou. A linguagem técnica é a mesma de Lucas de Burgo e dos outros algebristas, que imediatamente o seguiram. No corpo da obra não trata do mais do que equações do primeiro e segundo grau, e das dos graus superiores que podem ser resolvidas à maneira destas: exemplifica as suas soluções com um grandíssimo número de problemas e geometria assaz curiosos, e por fim junta em forma de suplemento uma dissertação, a que chamou Carta aos Leitores, em a qual ajuíza das obras de Lucas de Burgo e de Jeronimo Cardano, e muito especialmente das de Nicolau Tartaglia, as quais em alguns lugares repreende, e em que mostra inclinar-se a que, ou este último, ou Sipião Ferreo fora o verdadeiro inventor do método da resolução das equações do terceiro grau, geralmente chamado Método de Cardano, contra a generalidade do qual opõe algumas objecções derivadas todas de questões pertencentes ao caso irredutível.
No fim das anotações ao Tratado da Esfera faz o mesmo geómetra menção de outro tratado, que escrevera sobre a Trigonometria Esférica, o qual devemos dar por perdido, visto que nenhum dos nossos escritos nos deu jamais notícia alguma da sua existência; mas de cujo merecimento podemos formar ainda algum conceito pela maneira por que seu mesmo autor dele nos fala. Eis aqui as sua próprias palavras fielmente copiadas.
"Escrevi (diz ele) a Geometria dos triângulos esféricos largamente, antes que de Alemanha nos mandassem à Espanha os livros de Gebre e de Monte Regio, que na mesma matéria falam; e depois de lidos não rompi o que tinha escrito"
Desta mesma obra nos falou ele segunda vez no fim do tratado dos crepúsculos, aonde indica a intenção em que então se achava de o dar à luz pública, juntamente com o tratado demonstrativo do astrolábio, com o outro do Planisférico geométrico, com o das proporções, e com a exposição do modo de delinear um globo terrestre adaptável aos usos da navegação, e outros opúsculos que então tinha entre mãos, e que jamais chegariam a ser impressos.
Da dedicatória deste mesmo tratado dirigida ao Senhor Dom João III, se manifesta que Pedro Nunes empreendeu, além das obras aqui mencionadas, também a tradução e ilustração dos livros de Vitrúvio sobre Arquitectura, trabalho que naquele tempo tinha assaz adiantado, mas que nos não consta que chegasse a a concluir.
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