Ensaio Histórico sobre a Origem e   

      Progressos da Matemática em Portugal

(1819)


Francisco Garção-Stockler


Introdução

... Não é menos digno de memória o nome de Dom Francisco de Mello, primeiro Bispo eleito de Goa, matemático versadíssimo nas obras dos antigos Geómetras, principalmente dos gregos, das quais, não só traduziu para latim o famoso tratado de Arquimedes: De incidentibus in humidis, ou do equilíbrio dos sólidos mergulhados nos fluídos, e os tratados da visão directa e reflexa, atribuídos a Euclides; mas ilustrou e adicionou as mesmas obras com demonstrações novas e doutos comentários; os quais, por uma fatalidade assaz comum aos escritores portugueses daquele tempo, não chegaram até agora a ver a luz publica.

Felizmente aconteceu que as obras de Pedro Nunes seu sucessor no emprego de mestre de Matemáticas dos Filhos de El Rei D. Manuel não corressem igual fortuna. Este geómetra, o maior que as Hespanhas tem produzido, e incontestavelmente um dos maiores que no século XVI floresceram na Europa, começou a fazer se conhecer no reinado de Dom João III, sendo por este soberano provido no lugar de cosmógrafo do Reino em o ano de 1529 (x), passando no de 1530 a ser nomeado lente de filosofia da universidade de Lisboa, e publicando no ano de 1537 o tratado da sphera com a theorica do sol, e da lua, e o primeiro livro de geographia de Ptolomeu, a que juntou dois tratados, um sobre certas dúvidas de navegação que Martim Afonso de Souza lhe propusera, à sua volta do Rio da prata, e o outro sobre as cartas hidrográficas planas, e sobre o regimento da altura, obras hoje raríssimas (22).

Pelas dedicatórias e exórdios delas se vê que Pedro Nunes desejava ardentemente promover os estudos de cosmografia entre os Portugueses, e que os pilotos do seu tempo, como pela maior parte acontece ainda aos do nosso , desdenhavam adquirir os princípios científicos e fundamentais da sua arte; presumindo que, por saberem praticar cegamente regras mais usuais de pilotagem, tinham chegado ao mais alto grau de conhecimentos náuticos, ou pelo menos, que tudo quanto ia além do seu saber eram coisas absolutamente inúteis (23).


Notas

Notas de rodapé

(x) No Real Arquivo da Torre do Tombo em liv. 48 da chancelaria do Senhor Rei D. João III a F. 120 verso, se acha registada a carta de cosmógrafo do Reino que se passou a Pedro Nunes, sendo ainda Bacharel em data de 16 de Novembro de 1529, com 20 mil reis de mantimento.

Notas - Aditamento (Feito no ano de 1808)

(22) Pedro Nunes foi natural da Vila de Alcácer do Sal; mas nenhum dos documentos a ele relativos, que em companhia do meu respeitável consócio e amigo, o Senho José Correia da Serra, secretário da Academia Real das Ciências, examinei no Real Arquivo da Torre do Tombo, nem tão pouco em os nossos escritos nacionais encontrei notícia alguma de quem fossem os pais; nem mesmo dos anos de seu nascimento e morte [sabe-se actualmente que Pedro Nunes nasceu em 1502 e morreu em 1578]. Entre os estrangeiros, M. Bailly, no livro IX § 24 da sua História da astronomia moderna; M. Lalande, no Livro II, Nº 467 do seu Tratado volumoso Tratado de Astronomia; Bayle, no seu Dicionário; Weidler, na História da Astronomia, pág. 361; e  Nicolao Antonio, Biblioteca Hispanica, tom. III, pág. 476; todos afirmam (os quatro primeiros, provavelmente fundados na autoridade do último, que Pedro Nunes  nascera no ano de 1492, e que falecera em o de 1577. Que fundamento tivera Dom Nicolao Antonio, para fixar aquelas épocas, é coisa que não tenho podido descobrir; e como o simples dito de um autor estrangeiro, por mais que seja repetido por outros, não tenha no seu conceito autoridade bastante para afirmar a verdade de um facto de nossa história, desconhecido entre os nacionais; por isso continuo a dar por incerto o tempo do nascimento e óbito de do nosso geómetra. O que sem dúvida é que ele existia ainda em o ano de 1574, pois que na data de seis de Abril desse ano, se lhe passou apostila para vencer por mais dois anos e pensão de oitenta mil reis, de que El Rei, no ano antecedente, lhe havia feito mercê em razão de haver sido chamado à corte, para onde partira de Coimbra, em 11 de Setembro de 1572. Desta primeira mercê se lhe passou Alvará ou Padrão, o qual se acha  registado no Liv. XXXII da Chancelaria de El Rei Dom Sebastião, na folha 172 verso, e foi dado em Évora aos 25 de Agosto de 1573. Da segunda se lhe passou a mencionada apostila, que se acha registada no Liv. XXXIV da Chancelaria do mesmo Senhor Rei, a folha 32, e foi passada em Lisboa aos 6 de Setembro de 1574. É verosímil que anda vivesse no ano seguinte; por quanto à margem do registo de um padrão de Juro real de R. 25 : 775 reis e 5 ceitis, que ele comprara à Fazenda Real por R 515 : 477 reis, o qual se lhe passou em Lisboa aos 27 de Agosto de 1566, lhe foi posta uma verba de distrate de mencionado capital, em 19 de Setembro de 1575; o que tudo consta do Liv. XVII da Chancelaria de El Rei Dom Sebastião, a folha 220 verso. Porém como este distrate podia ser feito por seus herdeiros, o que ali se não especifica, dele não resulta prova segura, de que Pedro Nunes fosse ainda vivo.

(23) Eis aqui como o mesmo Pedro Nunes se explica na Dedicatória do seu Tratado, em defensão da carta de marear, dirigido ao Infante Dom Luís: 

Eu fiz, Senhor, tempo há, um pequeno Tratado sobre certas dúvidas que trouxe Martim Afonso de Souza quando veio do Brasil. Para satisfação das quais me conveio trazer não somente coisas praticas de arte de navegar; mas ainda pontos de geometria, e da parte teórica. E sou tão escrupuloso em misturar com regras vulgares desta arte termos e pontos de ciência, de que os pilotos tanto se riem, que andei sempre pejado; até declarar as coisas, em que quase forçado naquela pequena obra me entreti; mas queria Deus suceder-me isto de sorte, que não seja outro comentário a este  comentário.

Tão antigo é o riso dos ignorantes, e a moderação dos sábios!

 


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