Tratado que o doutor Pedro
Nunes fez
ão há muitos
dias que falando com Martim Afonso de Sousa sobre a navegação que fez por as
partes do sul, entre outras coisas disse-me com quanta diligencia e por quantas
maneiras tomara a altura dos lugares em que se achara., e verificara as rotas
porque fazia os caminhos, mas que de duas coisas se espantara muito que na sua
viagem experimentou, e era. A primeira que estando o sol na linha em todos os
lugares em que se achou lhe nascia em leste e se punha no mesmo dia em oeste,
isto igualmente sem nenhuma diferença ora se achasse da banda norte ora da
banda do sul. E perguntou-me porque razão, se governamos a leste ou oeste, indo
por um paralelo, numa mesma altura sempre, sem nunca podermos chegar à
equinocial onde levamos a proa juntamente com o leste da agulha. O segundo que
me perguntou é que ele se achara em 35 graus da outra banda da linha, no tempo
que o sol estava no trópico de capricórnio, e lhe nascia ao sueste e quarta
leste, e se lhe punha no mesmo dia ao sudoeste quarta de oeste, como os que
vivem na mesma altura desta parte do norte, e que não via como podia ser,
porque por razão, assim havia de nascer aos que vivem na outra banda do sul
quando o sol anda por os signos da mesma parte, como nasce a nós quando anda
desta nossa banda. E pois a nós no verão estando o sol no trópico de cancro,
nos nasce em nordeste quarta de leste, também aos que vivem da outra parte do
sul, no seu verão devia o sol nascer ao nordeste quarta de leste. Satisfaz eu a
estas dúvidas por palavra o melhor que puder, e todavia determinei descrever o
que nisso me pareceu, porque se não perdesse meu trabalho, em coisa que segundo
eu estimo, e a principal parte para quem deseja saber como se há de navegar por
arte e por razão. E porque sei que vossa alteza tem tal engenho, que
ligeiramente entenderá tudo o que nisto e em qualquer outra coisa possa
alcançar, e por cima disso se quiser pudera melhor apontar o que me fica por
entender que nenhuma outra pessoa, lhe peço me faça esta mercê, que queira
ver esta pequena escritura, para que parecendo-lhe bem, possa verdadeiramente
afirmar ser isto bom, e ter contentamento de meu trabalho, e julgando dela o
contrário, saberei que não acerto nisto, antes buscarei outra via para soltar
estas dúvidas, e isto para se serviço.
uanto ao primeiro
não deve haver dúvida, ser verdade geralmente o que Martim Afonso achou nas
partes onde esteve, convém saber que todas as regiões do mundo o dia que o sol
está na linha nasce em leste e se põe em oeste. Porque coisa clara é, que
fazendo no centro do horizonte uma linha meridiana, pela arte que Vetrúvio para
isso traz, a tal linha se chama o rumo de norte sul, e atravessando esta linha
com outra perpendicular, teremos o rumo de leste oeste, e assim ficará
repartido todo o círculo do horizonte em quatro quartas cada uma de noventa
graus. E isto se representa assim pela agulha que navegamos, como também por
qualquer das agulhas que na carta se pintam. Ora manifesto é que o paralelo de
nossa altura não reparte com o meridiano ao horizonte em quarto quartas
igualmente, como era necessário para que fosse linha ou rumo de leste oeste. E
portanto nenhum paralelo fora da equinocial, vai leste oeste. Mas imaginemos um
círculo grande no céu, que passe pelo do nosso zénite ou pelo do horizonte, e
cortando o meridiano com ângulos rectos, vá por ambas as partes ter com a
equinocial, onde a mesma equinocial se encontra com o horizonte, e os tais
lugares são o oriente e ocidente equinocial, e isto é geral a todas as
regiões do universo. E os matemáticos devem imaginar que a linha direita
perpendicular sobre a linha meridiana de que falamos, é cortadura comum deste
círculo grande com o meridiano, como pelo livro XI de Euclides se poderá demonstrar,
do qual se segue manifestamente, que quem for pela tal linha que é o rumo de
leste oeste, irá sempre no mesmo círculo grande, e o seu zénite também irá
por baixo da circunferência do tal círculo e se nós falássemos do verdadeiro
círculo do horizonte que é um dos maiores da esfera, acharíamos que uma só
linha direita de leste oeste há no mundo, e que esta seria a linha de leste
oeste dos que vivem debaixo da equinocial, porque ela só é a comum cortadura
de todos os horizontes com o meridianos, mas falando do nosso horizonte
pelo qual nós andamos, o qual posto que não seja círculo maior, é porém
pouco diferente dele, pois igualmente nos mostra a metade do céu, como o
verdadeiro horizonte. Portanto cada região tem seu próprio leste oeste, o qual
será a linha que dissemos perpendicular na merediana, por quanto este nosso
horizonte é equidistante ao verdadeiro.
as posto que o
círculo grande sobredito nos encaminhe ao oriente equinocial e se represente
pelo leste da agulha, e quem pelo tal círculo for, vá ter ao dito oriente
equinocial, não havemos porém de cuidar, que quem por ele for irá a leste,
porque tanto que por ele andar achará que o leste da agulha não vai na proa do
seu navio, e andando espaço de caminho, em que esta diferença possa sentir
achará que vai já por outro rumo. E portanto o que governa sem entender o
porque o faz, emenda logo de princípio sua navegação, se quer ir a uma mesma
altura. E é isto por tal maneira que se governássemos a leste, e atássemos
o governalho de sorte, que nenhuma mudança fizesse, e o mar fosse
tão tranquilo, que nenhuma coisa nos embargasse nossa navegação, e por cima
de tudo isto o vento nos favorecesse, como quiséssemos, e corresse para aquela
parte onde vai endereçado o leste da agulha, todavia sem assim andássemos
notável espaço de caminho e olhássemos a agulha, acharíamos que íamos fora
de leste. E a razão disto é, porque posto que no centro do horizonte donde
partimos, fizesse o círculo grande sobredito com o meridiano ângulos rectos,
como convém para ficar repartido o horizonte em quatro partes iguais, tanto que
saímos fora de tal lugar logo mudamos o horizonte, e pelo conseguinte o
meridiano, e já o meridiano novo não corta ao círculo grande pelo qual
fazíamos o nosso caminho com ângulos rectos, mas faz outro desigual, que se
chama em cosmografia ângulo da posição dos lugares, o qual ângulo fica de
fora do triângulo que fazem os dois meridianos, com círculo porque íamos,
e o primeiro ângulo que nos mostrava o caminho que fazia para que parte fosse,
fica de dentro e como este círculo grande não é a equinocial sempre estes
ângulos são desiguais, e algumas vezes o de fora é maior e outras vezes
menor, segundo a parte em que estamos e para onde vamos. E posto que nos
triângulos de linhas direitas, sempre o ângulo de fora, seja maior do que o
que está defronte dele da parte de dentro, nos triângulos de linhas curvas é
da maneira que digo, como no tratado
que sobre eles escrevi demonstrei, e assim declarei quanto seria o de fora
maior, e quanto seria menor. E tornando a meu propósito digo que achando-nos
pelo modo sobredito fora de leste tornaríamos a emendar nossa navegação,
pôr-nos-íamos outra vez na altura em que antes estávamos. Mas porque
nosso intento é ir a leste, e sempre levamos o sentido pronto na agulha, nunca
descaímos a altura coisa sensível porque antes que caíamos em erro manifesto
de princípio nos emendamos. Do qual se segue que levamos sempre a proa no
oriente equinocial, o qual se afasta sempre do pólo ou centro do nosso
horizonte por noventa graus, e nunca chegamos ao dito ponto, mas antes vamos
numa mesma altura e em igual distância da linha equinocial que parece coisa
para dela espantarmos. E daqui vem que quando indo leste oeste corremos corremos
todos os lugares que estão num paralelo, dizemos que todos os paralelos estão
leste oeste no mundo não sendo na verdade assim, porque só a equinocial tem
isso, e nenhum dos outros pode ser rota alguma de quantas na agulha se
representam, e se podem ainda imaginar como abaixo provarei, antes quaisquer
lugares de uma mesma altura têm a sua própria e certíssima rota pelo qual se
podem correr, sem haver necessidade de fazer rodeios, que vai fazendo quem vai
leste oeste. E por cima de tudo isto saberemos o que temos andado e justamente
onde estamos, e seremos fora da grande cegueira e cuidado que têm os que andam
leste oeste, nem haveria tanta necessidade de saber a altura de leste oeste para
a navegação. E para demonstração do sobredito imaginemos que o círculo dap
é meridiano do horizonte lcm e alinha acp sirva por equinocial o
pólo do horizonte seja o ponto b do qual partimos e vamos para leste,
clara coisa é que o leste da agulha e a proa do navio, irão endereçados ao
ponto c porque a quarta b c do círculo grande faz com o
meridiano dap ângulos rectos no ponto b, e sendo o ângulo mbc
recto, toma do horizonte a quarta mc como também na agulha, as duas
linhas de norte sul, e leste oeste, tomam a quarta da roda da mesma agulha pela
qual se representa o horizonte. E se partindo do ponto b e levando a proa
em c andássemos tanto que chegássemos ao ponto e acharíamos já
diferença na agulha, porque o meridiano do tal lugar seria def, o qual
com o círculo bec faz o ângulo fec menor do que recto, e portanto
o navio iria então por outra rota que é menos que leste, e estaria em outra
altura menor do que a primeira donde foi a partida, porque o arco ef é
menor, que o arco ab como se prova no meu livro dos triângulos
esféricos. E por esta razão antes que o erro se conheça achando-nos
no ponto g em que não descaímos nem da altura do polo, nem da rota que levávamos,
coisa sensível, emendamos de princípio a navegação, e governamos ao ponto i
de sorte que a agulha vá justa em leste, e indo pela quarta gih tendo
já por horizonte sht e o ponto h é o oriente equinocial que pede
o leste da agulha, o qual se mudou pela mudança que também fez o meridiano e o
horizonte, nem procederemos muito indo pela quarta gih porque nos será
necessário passar a outra quarta que demanda o ponto k e assim faremos
sempre governando igualmente a leste, e emendando-nos de princípio, mudaremos
tantas vezes os meridianos e horizontes e faremos o nosso caminho por tantas
quartas das quais cada uma demanda a equinocial, em diferentes lugares, até
chegarmos ao ponto o que tem a mesma altura que b e haveremos
andando o paralelo bo indo sempre por as redondezas de círculos maiores,
e fazendo alguns pequenos desvios que se não sentem, e ao sentido parece que
andamos por um paralelo igualmente, mas a causa deste parecer é. Porque como
quer que estes círculos maiores, pelos quais os navegantes andam quando vão em
uma altura, sejam contigentes ao paralelo de sua altura, e cortem no mesmo lugar
da contingência aos meridianos com ângulos rectos, posto que pelo tal círculo
maior andem algum espaço de caminho, não descaem logo da altura em que
estavam, porque há muito pouca declinação acerca do ponto de contingência, e
pelos pontos que estão perto dela vai o círculo grande sobredito quase
direito. E desta maneira vemos que declinando o primeiro ponto de cancro 23
graus e meio da equinocial, os primeiros cinco e seis graus de cancro, e os
derradeiros de gemini não fazem mais diferença que de seis ou sete meios, e a
esta razão se há muito de olhar. A outra causa de parecer que vamos por um
paralelo, é porque posto que um círculo maior quando toca a outro menor faça
esta contingência num ponto invisível, isto será se também as
circunferências forem invisíveis, mas pois o caminho que se faz pelo círculo
maior não é invisível, nem é muito que esta contingência seja em mais que
ponto, e assim indo pelo círculo maior leste oeste em alguma maneira vamos pelo
menor. E deste modo me parece que tenho satisfeito a pergunta que me foi feita,
somente pela maior declaração, quero lembrar uma coisa que todos sabem, pelo
que se crerá que falo nisto a verdade. Não há pessoa no mundo posto que muito
fora de letras e de experiência seja, quem não saiba que quando os dias são
iguais às noites, que estando o sol na linha, nasce o sol pela manhã às seis
horas por todos os relógios em todas as regiões, e se põe às seis horas. Ora
claro é que a linha da hora sexta faz esquadria com a linha de norte sul, e vai
leste oeste, do qual se segue que todo o mundo estando o sol na linha
nasce em leste.
ara satisfação da
segunda dúvida é necessário declarar o que acima comecei a dizer, e os que
fizerem seu caminho por um paralelo, e sempre em uma mesma altura, que rota
levarão, pois não vão leste oeste se não por círculo maior, pelo qual
havemos de notar que posto que o círculo de leste oeste, seja aquele que com os
meridianos faz ângulos rectos, e o paralelo de qualquer altura faça com todos
os meridianos ângulos rectos, como claramente se demonstra pela XX proposição
de Teodósio no primeiro livro, nem por isso havemos de dizer que os paralelos
vão leste oeste. A alguns parceria porventura que a causa disto é porque estes
ângulos rectos não são iguais uns a outros na esfera , como vemos que o
coluro estival, que também é meridiano, faz com o Zodíaco no princípio de
Cancro ângulos rectos, e com o trópico também ângulos rectos, pois que passa
pelos pólos de ambos, e assim parceria que um destes ângulos rectos
esféricos, ficava parte de outro, e seriam desiguais. Mas na verdade os tais
ângulos são iguais, e quaisquer outros rectos, ora se façam círculos
maiores, ora com menores, como demonstrei na proposição 34 do livro dos triângulos
esféricos. E deve-se ter por coisa certa que nenhum paralelo vai leste
oeste, nem leva alguma rota, das que pela agulha se representam nem se podem
nela imaginar. A causa é porque todas as rotas pelo qual caminhamos, são
linhas que passam pelo centro do horizonte, como acima disse, e são cortaduras
comuns dos círculos maiores da esfera na superfície do horizonte, do qual a
agulha é figura, e porque todos os paralelos tirando a equinocial, que não vai
neste conto, são círculos menores, cortam o horizonte em partes desiguais, e
vão por fora do seu centro, que é o mesmo centro da agulha e portanto podem
servir de rota alguma como nesta figura se vê. Na qual o círculo abcd
representa o horizonte, ou a agulha, e a linha ab é a comum cortadura do
meridiano e horizonte, e fica para rumo de norte sul, a linha cd é comum
cortadura do horizonte e do círculo grande que passa pelo zénite corta o
meridiano, com ângulos rectos, e serve por linha de leste oeste, a linha fg
é comum cortadura do horizonte e de um círculo grande que passando pelo
zénite, toma o meio da quarta ad e da quarta bc e é rumo de
nordeste sudoeste, e o mesmo se há de imaginar nas meias partidas e quartas, as
quais rotas todas passam pelo ponto e que é do horizonte.
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mas o caminho porque verdadeiramente andam, é a linha curva acb a qual não é círculo, nem linha direita, e quem esta minha imaginação bem olhar, entenderá que o erro dos navegantes se pode tirara a verdade, e que sem ir a um lugar, nem nunca navegar, pela falsa enforcação que dão dele, se pode saber a verdade. Mas o melhor seria para claro conhecimento do assento dos lugares, navegar pela arte, na qual há dois modos, o primeiro é ir por uma mesma rota sem fazer mudança, e isto guardam sempre os navegantes, mas a conta há de se fazer por uma certa maneira de linhas curvas, como parece o nordeste desta figura, e não por linha direita como a carta mostra. O segundo modo seria ir por círculos maiores fazendo sempre aquela diferença, nas rotas a que a desigualdade dos ângulos, que se fazem com os novos meridianos nos obriga, mas a conta se há de fazer nos mesmos círculos ou em linhas direitas que os representem e não como na carta, na qual posto que todas as rotas sejam as cortaduras comuns dos círculos maiores com os horizontes, não nos podem porem servir para este propósito, porque fazem sempre as rotas ângulos iguais pela equidistância que sempre guardam. E posto que para cada um destes modos sirva a poma rumada como convém, que nenhum outro planisfério, o primeiro deles principalmente, se pode por em obra, com a mesma carta porque navegamos com alguma pequena mudança que se faça, ficando a mesma forma da carta com a equidistância das linhas que agora tem. Mas tornando ao propósito principal, digo que para sabermos a rota em que dois lugares estão, havemos de lançar círculos maior por ambos, e os graus do horizonte que ficarem recolhidos entre o ponto onde o mesmo horizonte corta a equinocial, e o outro ponto onde o círculo que lançamos corta o horizonte nos mostrarão a rota que é como parece na figura. Porque se forem quarenta e cinco graus da quarta oriental setentrional, estarão os dois lugares nordeste e sudoeste, e assim pelo conseguinte se fará em quaisquer outros. E nesta figura b e d são dois lugares, os quais queremos saber que rota tem o horizonte de b e gah o paralelo em que está d é ydk o círculo que se lança por bed é a quarta bdc a quarta ba é a que corta o meridiano em ângulos rectos, e o ângulo abc que do horizonte toma o arco ac nos mostra que nesta disposição vale a rota 24 graus que é nordeste sudoeste. Do qual se segue que estando alguns lugares numa mesma altura, o primeiro não se corre com o segundo como com o terceiro, ... |
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