Selos

Artigo de Nuno Crato, publicado no jornal Expresso de 09-03-2002, sobre a edição de selos comemorativos dos 500 anos do nascimento de Pedro Nunes.

 


 

Metomatemática

Três novos selos comemoram os 500 anos do nascimento de Pedro Nunes, criador do nónio.

Pedro Nunes era já uma personagem filatélica em dois selos que os correios lhe dedicaram no quarto centenário da sua morte, em 1978. Os aficcionados sabiam ainda encontrar o nosso matemático num outro selo, um exemplar de 1924 dedicado a Camões, em que se reproduz uma imagem da estátua do poeta existente em Lisboa - Pedro Nunes, por estar representado entre as personagens que ladeiam a estátua, aí aparece também, embora em posição secundária.

Este ano, comemorando-se cinco séculos sobre o nascimento do matemático, os Correios de Portugal decidiram publicar três novos selos dedicados a Pedro Nunes. Através deles, o nosso antigo cosmógrafo-mor vai, a partir desta semana, viajar por todo o mundo, levando a partes remotas o seu nome e algumas imagens das suas criações, nomeadamente a curva loxodrómica e o nónio.

Foi o conhecimento das loxodrómicas que permitiu a Mercator a construção do sistema de projecção de mapas que, ainda hoje, é dos mais utilizados
 

No selo de 0,28 euros, à direita, estão traçadas espirais loxodrómicas estilizadas, tanto no espaço como sobre um globo. Estas últimas espirais prolongam-se sobre o selo central, de 1,15 euros, onde aparece uma imagem de alguém que poderá ter alguma parecença com Pedro Nunes. Não se trata do nosso matemático, pois não existem gravuras da época que o reproduzam. Trata-se, isso sim, de uma imagem inventada, mas verosímil.

A curva loxodrómica é uma das grandes descobertas de Pedro Nunes. Aparece primeiramente na sua obra Tratado sobre certas dúvidas da navegação, de 1537. Nessa obra, o matemático discute a linha de rumo que um navio traça se seguir uma direcção-cardeal constante, por exemplo, se rumar sempre para noroeste.

Julgava-se, na altura, que um navio que seguisse uma rota desse tipo, sempre ditada pela mesma inclinação da bússola, viajaria pelo caminho mais curto entre dois pontos do globo. Pedro Nunes mostrou que isso não é verdade e que, com excepção de rotas sobre o mesmo meridiano ou ao longo de um paralelo, esse rumo é uma espiral que dá infinitas voltas ao globo e que converge para um dos pólos. Essa linha não segue pois a distância mais curta entre dois pontos, que seria um arco de círculo máximo. Foi o conhecimento das loxodrómicas que permitiu a Mercator a construção do sistema de projecção de mapas que tem o seu nome e que ainda hoje é dos mais utilizados.

No terceiro selo, o de 0,28 euros, à direita, aparece em primeiro plano um quadrante e, em fundo, as linhas das escalas que nele estão gravadas. O instrumento é o único da época dotado de nónio e que sobrevive. Trata-se de uma peça descoberta há poucos anos em Florença pelo comandante Estácio dos Reis.

As escalas desse quadrante estão graduadas segundo o processo original de Pedro Nunes, que veio a ser conhecido como nónio. São 45 escalas circulares concêntricas que, no seu conjunto, permitem aumentar a precisão do instrumento. A versão mais conhecida do nónio é outra. Consiste em duas escalas, uma fixa e outra móvel, tal como o francês Pierre Vernier posteriormente propôs com base no invento do nosso matemático.


Nuno Crato


 

 


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