Há um ano, numa reunião, perguntaram-me:
E tu, o que é que achas da autonomia?
Gosto, mas... respondi.
Gosto da autonomia, porque ser autónomo é sinónimo de ser vivo, porque a autonomia é uma propriedade inerente a qualquer grupo profissional efectivo, e ainda mais quando esse grupo profissional lida com o crescimento global de pessoas.
Gosto de ter e exercer autonomia, na aplicação crítica de orientações educativas nacionais, gerais e para a Matemática, na reflexão sobre a nossa prática, na tomada de iniciativas locais, porque só a autonomia atribui às escolas e aos professores a responsabilidade de tomarem as decisões mais adequadas na gestão do currículo: não há um modo único, nem uma sequência única, independente das situações concretas, dos alunos concretos e do professor concreto, para se atingirem os (...) objectivos, como refere o recente livro A Matemática na Educação Básica (texto que merece a reflexão de cada professor e pede um debate em cada escola, em vez da aquiescência dos simpatizantes e do sobranceiro olhar noutra direcção por parte dos opositores).
Mas o desempenho autónomo de professores e escolas não consegue concretizar-se de igual modo se a sociedade (os poderes, os pais, os media, o meio empresarial) respeita e acarinha o conhecimento e a cultura, ou antes, a crendice, a coltura pimba, a subserviência e o poder da cunha; se o esforço por aceder ao conhecimento e à formação recebe, ou não recebe, reconhecimento social, oportunidades profissionais e remuneração adequada.
Mas a Autonomia pressupõe escolas dotadas de condições materiais e humanas, com técnicos sabedores, profissionais respeitados e mobilizados. E aí, embora bastantes lacunas e carências tenham vindo a ser colmatadas, quem está no terreno e com os olhos abertos não pode dizer outra coisa que não seja que muito está ainda por fazer: escolas superlotadas, com os seus maus horários, professores não estabilizados, pavilhões gimnodesportivos por erguer, técnicos especializados, bibliotecas e material experimental fornecidos homeopaticamente, assistência e apoio social mais que sofríveis...
Aqui, lamento desiludir os meus amigos sindicalistas (e desiludir a minha costela sindicalista), mas não creio que as únicas limitações à autonomia dos professores e das escolas sejam as de natureza material, as de infra-estruturas.
Urge o crescimento profissional dos professores, reforçarmos uma postura de participação e exigência: o não se fingir que não se vê os problemas, o não nos satisfazermos diante deles com desculpas de chacha ou explicações de meia-tigela, antes o definirmos cada vez mais e melhor, individual e colectivamente, objectivos e acções, iniciativas, que melhorem o ensino proporcionado e as aprendizagens ao alcance dos alunos.
Sem engolirmos a primeira mezinha para a melhoria instantânea do ensino da Matemática, devemos reconhecer e afirmar que muito há para fazer e se pode fazer em tal intenção, e que muito depende de decisões de escolas e seus responsáveis, de grupos e seus delegados, de professores (de Matemática, pois!): ultrapassando a injusta e perversa redução de duas horas aos professores exclusivamente com Secundário, preparando e organizando materiais e actividades adequadas aos programas, actividades extra-lectivas, Laboratórios de Matemática, multiplicando os muitos exemplos positivos já existentes, numa dinâmica de interesse e gosto pela Matemática (O conhecimento é um prazer, escreveu Carl Sagan).
Com ideias fortes na cabeça e o bom senso do compromisso que o dia-a-dia nos impõe, saibamos, os prático-reflexivos que nós professores somos, trilhar e melhorar, com os nossos alunos, o caminho amargo e doce da aventura do conhecimento, cívico, científico e matemático.
José Manuel Duarte
Esc. Sec. Fernando Lopes Graça