Editorial

Haverá ainda mais alguma coisa para mudar?...

A mim foi um professor de Matemática que me estragou a infância... A Matemática, em vez de dar ordem e harmonia à minha pequena alma dócil, enegrecia-a de raiva e de indisciplina sem aurora. Vivia aflito, humilhado, com uma pedra no peito.
José Gomes Ferreira

Cecília Monteiro

Em Abril de 1974, estava eu, e como eu muitos outros professores, a ensinar aos meninos e meninas de 11 anos a resolver equações do tipo a+x=b, a-x=b, x-a=b e outras tantas do mesmo tipo onde intervinham a multiplicação e a divi-são. Eram seis infernos para eles e para mim uma angústia. Procurava situações que servissem aqueles modelos, que motivassem, mas a ênfase era em última instância na técnica. Alguns alunos “aprendiam” durante o tempo necessário para responderem certo nos testes, outros não. A estes, que iam acumulando assim insucessos, acontecia, provavelmente, interiorizar mais um pouco a ideia de que, ou eram estúpidos ou então não tinham “queda” para a Matemática.
De então para cá, muita coisa aconteceu que todos nós, que lemos esta revista, vivemos directamente ou aprendemos através de outros. Os programas mudaram, novas ideias foram passando. É já fácil, hoje, encontrarmos alunos de olhos a brilhar numa aula de Matemática, sem medo de arriscarem uma resposta, ousando dar a sua opinião, fazendo perguntas...
Então, será que já não há mais nada para mudar? Bastará esperar que mudem todos aqueles que ainda continuam a provocar humilhações nos alunos ou então se reformem os mais velhos?
Esta pergunta pressupõe que se saiba realmente para onde se quer ir, o que talvez nem sempre seja o caso. Que sabemos nós do mundo daqui a 25 anos? Será que não será necessário ir mudando sempre? Será que se pode parar e dizer, “Já está”!?
Os materiais, as calculadoras, a resolução de problemas, a argumentação já provaram ter efeitos positivos nas aprendizagens e no gosto dos alunos pela Matemática; mas é forçoso ir mais longe. Manipulam-se materiais, e depois, como se faz a passagem do concreto para o formal e o abstracto? Quantas vezes a prática e a experimentação não aparece ainda desligada dos algoritmos e das regras, que se ensinam um pouco como antigamente?
E o que dizer da avaliação dos alunos, a parte curricular mais atrasada, deixada para trás pelos próprios professores, que inovam as estratégias mas por vezes continuam a avaliar com dois testes em cada um dos três trimestres do ano?
Estes são dois exemplos, muito temos que fazer ainda. Pela minha parte, cada ano que passa, olho para a frente e vejo um mundo de coisas a melhorar, a alterar... Provavelmente, o que de melhor aprendi com todos aqueles que me influenciaram na minha formação foi esta inquietação permanente, o não me satisfazer com frases feitas, o olhar para os alunos como gente importante.
Como diz Salman Rushdie, “o mundo não é cíclico, não é eterno nem imutável, mas está em constante transformação, sem voltar atrás, e nós podemos ajudar nessa transformação”. Pois é, apesar do movimento pendular que reconhecemos haver na Educação (e já há indícios, na Educação Matemática que o pêndulo está a mudar de sentido), nada será igual, nunca mais voltaremos aos tempos em que a Matemática era mais uma arma para atrofiar e meter medo.
Cecília Monteiro, ESE de Lisboa




uns alunos conhecem melhor os trapézios e as suas propriedades, e outros estudaram e classificaram outras famílias de polígonos? Não são os objectos que importam, mas a qualidade do pensamento matemático que o aluno desenvolve até porque, como diz Goldenberg, não é possível “ensinar a pensar” sem ter qualquer coisa sobre a qual valha a pena pensar* .

 

* Ver Educação & Matemática nº 48.