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Editorial
Acompanhar para renovar
Adelina Precatado
Esc. Sec. Camões, Lisboa
Estamos no segundo ano de implementação do programa ajustado do ensino secundário. Entre as medidas do DES para apoiar a leitura e melhor gestão do programa destaca-se a criação do acompanhamento local. Temos neste momento, no terreno, um conjunto de professores que vivem ao mesmo nível de todos os seus colegas os problemas da leccionação dos programas e que promovem o encontro de professores de escolas vizinhas para efeito exclusivo da aplicação do programa, impulsionando estudos e debates, para além da troca de ideias sobre diferentes planificações e experiências de várias escolas (circular 132 do DES, de 16.9.98).
O acompanhamento é sem dúvida uma medida positiva e inovadora, mas que impacto poderá ter na Matemática que os alunos vão ou não aprender? No gosto pela disciplina que pretendemos desenvolver nos alunos? Nas alterações que necessariamente serão introduzidas no currículo a curto e a médio prazo? Que contributo poderá dar o acompanhamento local para discutirmos e percebermos:
Qual a natureza da actividade matemática dos alunos, na sala de aula? Que espaço temos para o trabalho experimental e investigativo, para o desenvolvimento de projectos? Que metodologias prevê este ajustamento e que condições é preciso criar ou alterar? A ideia de que aprender matemática é fazer matemática reúne hoje largo consenso, como levar esta ideia para a realidade concreta da sala de aula?
Qual o papel da tecnologia no currículo de Matemática? Que alterações foram ou estão a ser de facto introduzidas com o ajustamento? Quais se avizinham? Como caminhar, sem sobressaltos mas decididamente para um ensino da matemática e um currículo mais adequado à sociedade da informação de que tanto se fala?
O que tem de mudar na avaliação? O que introduz o ajustamento de novo? Como levar à prática a orientação o professor não deve reduzir as suas formas de avaliação a testes escritos, antes deve diversificar de modo a que cerca de metade seja feita usando outros instrumentos... São os exames adequados?
Evidentemente que não se espera que o acompanhamento por si resolva os problemas do ensino e aprendizagem da matemática, mas o desafio de sermos capazes de aproveitar e aprofundar este espaço facilitador de debate e de troca de experiências para, numa atitude crítica e reflexiva, influenciarmos as condições necessárias à implementação do programa mas também, porque não, a própria evolução do currículo.
Não podemos por isso correr o risco de ver os acompanhantes locais como a face visível do ministério que tenta passar para as escolas umas tantas directivas conducentes ao cumprimento (dos conteúdos) de um programa que continua a ser extenso para o número de horas semanais que lhe é atribuído. Os acompanhantes locais são professores, a leccionar numa escola o mesmo programa que nós mas que têm oportunidades de formação próprias e uma situação de privilégio no contacto com os professores e escolas da sua zona e com os acompanhantes do resto do país, conhecem como ninguém a realidade. Devemos esperar que sejam interlocutores reflexivos e críticos entre professores, escolas, autores do programa e ministério (Departamento do Ensino Secundário). Do nosso envolvimento colectivo depende também a sua capacidade de intervenção.
Um outro desafio que está colocado é o de sabermos como aproveitar e aprofundar esta experiência. O hábito de reflexão e de trabalho conjunto que se começa a criar entre professores de diferentes escolas bem como a formação e a experiência adquirida pelos acompanhantes não podem ser desperdiçadas.
Não estará na altura de se pensar na criação a nível institucional, por exemplo, de Centros de Apoio Local que, em articulação com os Centros de Formação, poderiam proporcionar espaços de recursos, materiais e humanos, facilitadores do desenvolvimento de projectos comuns inovadores nas escolas bem como uma reflexão sistemática e crítica sobre os mesmos e, por consequência, sobre currículos e as condições para a sua implementação?
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