Pontos de vista, reacções, ideias...

Uma Gincana

Todos nós, professores de Matemática, lidamos diariamente com alunos desmotivados para quem esta disciplina continua a ser algo aborrecido, sinónimo de falhanços sucessivos e pertença de pessoas sobredotadas. Cabe-nos mostrar que a matemática pode ser divertida e a resolução de problemas matemáticos pode proporcionar momentos nada enfadonhos. Foi com este objectivo em mente que concebemos uma gincana.

A gincana era composta de seis provas "matemáticas" e cinco provas "físicas", que serviam de ligação entre as primeiras. Nas provas "matemáticas" as equipas completaram quadrados mágicos, decifraram o valor de símbolos presentes em operações, resolveram problemas e puzzles com fósforos. Na última prova "matemática" as equipas revelaram a sua veia poética, elaborando uma quadra onde apareciam, obrigatoriamente, as palavras Gincana e Matemática. Eis os três resultados mais inspirados:

Estamos nesta Gincana

Para brincar

Jogando com a Matemática

Vamos ganhar

Agora que estamos na Gincana

Pensamos que vamos ganhar

Mas com a Matemática

Só nos conseguimos baralhar

Na Gincana da Matemática

Vamos participar

O nosso nome é Incógnita

E viemos para ganhar

As equipas de quatro elementos, podendo ser um deles um professor, entenderam no final que a matemática não é só resolver exercícios rotineiros e desprovidos de prazer. Foi gratificante observar o empenho das equipas e a sua satisfação quando conseguiam ultrapassar as provas, bem como, a participação de vários professores da escola, nomeadamente os de Educação Física e uma colega do 5º Grupo. Por tudo isto, pensamos que é uma actividade a repetir nos próximos anos. No final foi cantado em coro (desafinado é certo!) o "hino" da gincana -"Carta de um aluno à professora de Matemática"- criado pela Maria de Fátima Tomé também professora desta disciplina. A letra foi acompanhada pela música da canção "Bilhete postal" dos Rio Grande. Apresenta-se a seguir as primeiras quadras:

Qu’rida prof. eu queria agradecer

Este dia tão cheio de emoções

Mas também lhe quero fazer um

[pedido

Por favor, acabe com as funções

Mas não pense que tenho aversão

Nesta disciplina que é pr’a pensar

A verdade é que não entendo nada

Dê-me 10 para eu poder passar.

Hoje sei resolver uma equação

Algumas já dão muito que fazer

Quanto ao resto, eu tenho muita

[esperança

Sei que um dia eu irei aprender

Professores de Matemática, ES Nº 1, Loures

 

Da janela da Matemática penso a Língua Portuguesa

Nos inícios da década de 80, principiava a minha carreira de professora. Já não me lembro como, mas a verdade é que chegou às minhas mãos um texto intitulado "A evolução do ensino através da evolução de um problema de matemática. O texto tinha sido escrito por um grupo de professores da Escola Normal de Grenoble e fora publicado na revista Science & Vie. Com um enunciado de um problema, ao longo dos tempos, eram traduzidas e ridicularizadas a onda de facilitismo e as arbitrariedades que o ensino atravessava, terminando-se com uma previsão para a década de 90. Mas vejamos o texto.

Ensino de 1960: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda. Qual é o seu lucro?

Ensino tradicional de 1970: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda, ou seja 80 francos. Qual é o seu lucro?

Ensino moderno de 1970: Um camponês troca um conjunto B grande de batatas por um conjunto M de moedas. O cardinal do conjunto M é igual a 100 e cada elemento bM vale um franco. Desenha 100 pontos que representem os elementos do conjunto M. O conjunto C dos custos de produção compreende menos 20 pontos que o conjunto M. Representa o conjunto C como um subconjunto de M e responde à seguinte pergunta: qual é o cardinal do conjunto L do lucro (escreve-o a vermelho)?

Ensino renovado de 1980: Um agricultor vende um saco de batatas por 100 francos. Os custos de produção elevam-se a 80 francos e o lucro é de 20 francos. Trabalho a realizar: sublinha a palavra "batatas" e discute-a com o teu colega de carteira.

Ensino reformado de 1990: Um kanpunez kapitalista privilejado enriquesse injustamente em 20 francos num çaco de batatas, analiza u testo e procura os erros de kontiudo, de gramatica, de ortugrafia, de pontuassão e em ceguida dis o que penças desta maneira denriquesser.

Hoje estamos nos finais da década de 90 e, já sem a graça de outrora, podemos ficar apreensivos quanto às previsões que foram, feitas, não por terem sido excessivas, mas por terem ficado aquém da realidade. Se limitar a minha reflexão ao 3º ciclo do ensino do básico, ciclo em que a resolução do problema não deveria oferecer qualquer dificuldade, sei que uma grande parte dos alunos não corresponderia às expectativas, quer no domínio da Matemática, quer no domínio da Língua Portuguesa. Frases como:

"O meu resultado foi negativa ambos dois"

"Eu fiz sempre o tabalho de casa, mas copiei pelas soluções muito pouco"

"Fis quase sempre os trabalhos de casa ao primeiro copiei"

"Resultados dos testes –> insuficiente quase positiva 2 insuficiente eu desci correi-me mal"

"Ficha de auto avaliação – eu ás vezes a stora estava a por no quadro a escrever e eu não escrevia"

"Prenchi a ficha mas não me lembro do que lá puz. Porque esqueci-me dela"

"Os resultados dos meus testes não sei se são baixos ou altos mas apesar de tirar 2as negativas mas vou tentar me esforçar cada vez mais"

"tenho feito o trabalho de casa mas quando é raro não fazer peço ajuda a outra pessoa, que os tenha feito"

"o resultado dos textes não foram lá muito bons"

"acho que não foram mau de todo

são extraídas de algumas das auto-avaliações dos meus alunos. Nem sequer são das piores, mas chegam para mostrar o mau estado em que se encontra a língua portuguesa. Sei que a luta não é apenas dos professores de Língua Portuguesa. Todos nós, professores, devemos dar o nosso contributo para reduzir o insucesso escolar na língua materna. Cada batalha ganha é também uma vitória para os campos específicos que leccionamos.

Dilma Gomes

E.S. de Paços de Ferreira