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Editorial
Desafiar a diversidade
Isolina Oliveira
EB 2,3 Damião de Góis
Aí está mais um final de ano, para professores e alunos. E mais uma vez tantas interrogações ficam no ar. Experimentaram-se metodologias, construíram-se materiais, pôs-se em prática a interacção social, discutiram-se os porquês, ouviram-se opiniões diferentes, argumentou-se e, no fim, onde estão os resultados? Os alunos ganharam algo? Para além de investigarem e desenvolverem ideias matemáticas, evoluíram como pessoas e a Matemática já não é um túnel sem saída? Ou ficou tudo igual? Estariam no mesmo ponto de partida se não me tivessem tido como professor(a)?
Gosto de pensar o período escolar, não como uma passagem, como apenas um tempo em que se preparam os alunos para a vida futura, mas como um tempo e um espaço que fazem parte das suas próprias vidas, integradas já no cenário de uma estrutura complexa.
Naturalmente, o que pensamos sobre a escola, sobre os alunos, sobre a Matemática, como deve ser ensinada e aprendida, condiciona toda a análise e reflexão que possamos fazer num final de ano lectivo. Agimos como veículos de uma dada cultura; os julgamentos e as escolhas que fazemos sobre os aspectos da cultura nos quais os alunos são inseridos, não são independentes das nossas crenças e valores para a educação e, nomeadamente, para a educação matemática.
No nosso imaginário prevalece ainda a imagem do bom professor como sendo exigente e distante, acompanhando os bons alunos porque os outros não davam para a escola. Hoje, ser um bom professor exige muito mais! Como dizia a Cristina Loureiro na última Educação e Matemática, o professor não só tem que gerir os currículos, mas também as aprendizagens que são bem diversas. Que o digam os professores de Matemática que lidam todos os dias com a diversidade de processos de aprendizagem. Numa sala de aula têm alunos motivados, ou não, para trabalhar e aprender; alunos com diferentes idades e ritmos de aprendizagem; com diversos modos de pensamento e de raciocínio, de comunicação e de expressão; conhecimentos anteriores em fases distintas; alunos que pertencem a quadros sócio-culturais e psico-familiares diferentes, com as suas próprias energias psíquicas e físicas.
A motivação é a base da aprendizagem, isto é, o desejo de agir e de aprender depende do sentido que o aluno encontra na aprendizagem, da necessidade em realizar algo, do prazer que sente em fazer, do grau de energia de que dispõe e da imagem de si e dos outros que vai construindo e interiorizando.
A heterogeneidade que está presente nas salas de aula, está também presente na sala dos professores. Ouvimos dizer com frequência que tudo se tornou mais complicado. Mas a sociedade não é hoje mais complexa do que há uma década? Por que é que a Escola iria escapar a essa complexidade?
Num tempo em que, segundo o filósofo italiano Bodei, se vive a crise da palavra, e se verifica uma desertificação das linguagens comuns, a Escola não pode fugir a este signo. Num tempo que corre tão veloz que não deixa tempo para ensinar o passado, para fazer passar a experiência, a Educação tem que assumir outras finalidades.
Que pensar? Que fazer? Continuar a fazer da mesma maneira? Entre a lógica massificadora que conduz muitas vezes ao desânimo e à repetição, e a necessidade de optar pela inovação, não há escolha possível. O desafio de conquistar alguém para a Escola, de ajudar os alunos a realizarem experiências educativas que contribuam para a definição de um projecto de vida, é a meta a atingir.
Neste desafio, os professores e os alunos não podem estar sós. Os professores sentem que a legitimidade do sistema educativo não passa apenas por eles. Na verdade, a Escola não possui ainda o multiprofissionalismo necessário para fazer frente à diversidade e, principalmente, às dificuldades mais sérias de integração escolar. É, no entanto, da escola que deve partir a procura de outras soluções. É neste território que se encontram os problemas e as energias inovadoras capazes de os resolver. As alternativas curriculares começam a gerar consensos. Contudo, há necessidade de ir avaliando e reflectindo sobre o que vai sendo construído, para, a partir daí, começar a construir outro modelo educativo, outra Escola.
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