Editorial

Profissão: Professor de Matemática
Ano: 1998


Cristina Loureiro
ESE Lisboa




Uma das coisas que melhor recordo do meu ano de estágio era um comentário da minha orientadora em 1980:
Hoje é mais difícil ser professor do que quando eu comecei. Hoje o professor de Matemática, além de saber matemática tem de enfrentar situações de aula muito complicadas e difíceis. Nos meus primeiros anos bastava-me saber bem o assunto que ia ensinar. Hoje é preciso saber motivar os alunos, apresentar a matemática de uma forma interessante, ter propostas de trabalho diversas, chegar junto dos alunos, entender as suas dúvidas, fazê-los compreender. A tarefa que vos espera é uma tarefa muito difícil.
Não posso garantir que fossem estas exactamente as suas palavras, mas estas eram as ideias e o vocabulário era também mais ou menos este. Tenho a certeza de que hoje ambas diríamos:
O professor de Matemática é um gestor de currículo e de aprendizagens. Gerir um currículo pressupõe que se conheça muito bem o assunto de aprendizagem para que ele possa ser manobrado de acordo com as situações. Gerir aprendizagens pressupõe respeito pela diversidade de pontos de partida e de formas de aprender, e exige que se conheça muito bem os aprendizes. Hoje o professor tem de organizar a aprendizagem para que os alunos tenham um papel activo. Para isso precisa de saber encontrar e utilizar os verdadeiros estímulos da matemática, uma área de conhecimento desafiante e criativa por natureza. A diversidade de assuntos e as especificidades de cada um permitem que os alunos não reajam todos da mesma maneira, mas se pensar é inerente à natureza humana todo o indivíduo pode fazer alguma matemática e, por isso, poderá aprender alguma matemática. A sociedade tecnológica de hoje exige que a Matemática contribua para o desenvolvimento de cada cidadão.
Tarefas pesadas se as encararmos isoladamente. São tarefas que se realizam com outros profissionais, partilhando dúvidas, dificuldades e certezas também. Articulando uma prática reflexiva com contributos teóricos e resultados de investigação, procurando tirar todo o partido de instrumentos tecnológicos que têm sido colocados à nossa disposição, podemos encarar a profissão que escolhemos com o estímulo do desafio, da criatividade e da cooperação.
Ao longo dos anos, a profissão de professor de Matemática tem evoluído, acompanhando os desenvolvimentos da didáctica e da formação de professores. Hoje encaramo-nos como profissionais responsáveis pelo nosso próprio desenvolvimento profissional.
Tudo o que é inerente ao reconhecimento de uma profissão nos torna mais exi-gentes connosco próprios e com a formação de mais profissionais. A profissão de professor de Matemática no final do século XX não se compadece do recru-tamento de professores em função do número de créditos de matemática que contabilizam nas suas licenciaturas e independentemente da lógica da sua for-mação. Só quem vê a matemática como um saber exclusivamente de serviço e de aplicação pode considerá-la como tal. A matemática é também um saber de desenvolvimento, de educação e de formação. E para um professor de Matemática a sua formação deve articular harmonicamente todas estas componentes.
É por tudo isto e pelo alunos de hoje e de amanhã que desejamos que todos os futuros professores de Matemática comecem por realizar uma licenciatura em ensino da Matemática.