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- APM Informação nº 50
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- Editorial
Matemática (s)em debate
Não há nada a fazer: os portugueses não têm boa relação com a Matemática
(Margarida Marante, Esta Semana, SIC, 13 de Abril)
- Foi com satisfação que vimos o canal com maior audiência da televisão portuguesa dedicar algum tempo de antena à Matemática, distante da publicação de notas de exame. Contudo, estamos longe de fazer nossas grande parte das posições defendidas.
Acreditamos que a Matemática é para todos! É ensinada aos alunos do ensino básico. Deverá, também, ser ensinada a todos os alunos do ensino secundário!
Temos essa convicção porque as sociedades desenvolvidas têm necessidade de reforçar as capacidades dos cidadãos de compreenderem e interpretarem a informação, cada vez mais apresentada com carácter científico. É um dever do cidadão ter consciência de quanta Matemática existe à sua volta. Cabe ao sistema dar-lhe todas as condições para isso. A disciplina de Matemática é a que reúne melhores condições para desenvolver competências a nível do raciocínio numérico, geométrico, lógico, combinatório, estatístico, algébrico...
Neste debate tomou-se, uma vez mais, a nuvem por Juno: o insucesso é confundido com a média de um exame, a relação de um aluno com a Matemática é medida pelo lugar ocupado em estudos comparativos. Faltou o testemunho de inúmeras experiências de sucesso com alunos que se envolveram com esforço em actividades e projectos criativos na Matemática.
Será sensato atribuir a culpa dos resultados à implementação das reformas curriculares ou pedagógicas e justificá-las simplesmente com a preocupação de fornecer melhor imagem do sistema educativo no exterior? Em momento algum foi realçado o rumo para o qual a disciplina aponta: criação de experiências significativas de aprendizagem, resolução de problemas, utilização da tecnologia, ênfase no raciocínio (e não no cálculo).
A mudança das metodologias também foi criticada, mas essas sim, têm que continuar a mudar. De outro modo, como conseguiria o professor fazer o aluno descobrir o prazer de pensar e trabalhar na Matemática, em tudo quanto isso tem de belo, mesmo com o esforço que tal implica? Só com os teoremas?! Com as equações?!
O debate exemplificou muitas das concepções arreigadas sobre o que se entende ser o ensino da Matemática: números, operações, variáveis (as equações!); conjunto de técnicas de cálculo, truques, exercícios rotineiros; axiomas e teoremas.
São conceitos profundamente desajustados da realidade, consequência da excessiva formalização que durante muitos anos
imperou no ensino, da ideia generalizada que para ensinar Matemática são suficientes papel e lápis, da primazia da aritmética e da álgebra em detrimento de outros temas, como é exemplo a geometria, umas vezes desvalorizada nos programas, outras na sua implementação.
Há que reformar as mentalidades, de uma vez por todas. Ensinar Matemática, hoje, significa trabalho investigativo, trabalho experimental, trabalho em grupo, comunicação. Por isso, há que apostar na mudança das condições de trabalho na escola, na existência de espaços onde professores e alunos possam reunir e trabalhar, na existência de salas onde o computador seja uma ferramenta comum, no equipamento com recursos específicos para o ensino da Matemática; há que apostar na formação dos professores; há que reforçar a importância da Matemática nos primeiros anos. Há que repensar a escola!
No contexto actual a Matemática vive o estigma de ser a principal disciplina de selecção para muitos cursos do ensino superior, constituindo um factor de pressão para professores e alunos. O número de alunos que a Matemática envolve justifica a amplificação de todas as reacções. Quantos alunos em cada ano fazem exame de Matemática no final do ensino secundário? Em que circunstâncias? Seria conveniente conhecer os estudos já realizados.
Obviamente que há características desta ciência que lhe dão um carácter específico: a linguagem, a conceptualização, a formalização, a abstracção. Alguma confusão haverá entre as metodologias da Matemática enquanto ciência e enquanto disciplina, não necessariamente coincidentes: uma delas terá de se submeter a mais regras do que a outra, uma delas terá de se agarrar mais a carris do que a outra, mas ambas têm espaço para a criatividade.
Os professores desejam uma situação melhor e sabem que há um longo caminho a percorrer. Que cada um, aluno, pai, professor, educador, político saiba assumir as suas responsabilidades. Os professores não enjeitam as suas. Fundamental é que todos queiramos contribuir para o sucesso.
O debate ficou, quase sempre, por opiniões individuais e não foi esclarecedor quanto à Matemática e ao seu ensino. Uma certeza fica: nem a imagem dos alunos nem a imagem dos professores de Matemática sairam valorizadas daqueles 40 minutos do serão. Uma associação de professores defendendo a classe seria de imediato acusada de parcialidade; outro tanto não se poderá dizer quando pretende defender os alunos, pois é com eles que trabalhamos diariamente, ano após ano, reforma após reforma.
2000 foi declarado Ano Mundial da Matemática (AMM). Porque ela é chave para o desenvolvimento. Porque é necessário alterar a sua imagem.
Os materiais dedicados à comemoração do AMM, elaborados por alunos, têm vindo a ser divulgados na Internet. Da sua qualidade, se poderá julgar a acuidade da afirmação citada no início; da sua originalidade, se poderá avaliar do espaço para a criatividade na disciplina de Matemática.
Viva o Ano Mundial da Matemática!
Este artigo, da responsabilidade da Direcção da APM, foi publicado no jornal Público do dia 6 de Maio. Surgiu como reacção ao debate promovido pela jornalista Margarida Marante. Os convidados do programa foram Eduardo Prado Coelho, Graciano de Oliveira (Presidente da SPM), Nuno Cruz (apresentado como explicador!!) e Sara Norte, aluna do 9º ano. As expressões entre aspas são citações de intervenientes do programa.
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