|
Recursos específicos para o ensino da Matemática No que respeita à Matemática, os novos programas previam um conjunto de recursos para a sua concretização, desde os materiais manipuláveis às calculadoras e aos computadores. Apesar disso, praticamente nada foi distribuído às escolas, enquanto outras disciplinas receberam equipamentos específicos. A ideia de que a Matemática é uma disciplina árida, abstracta, de giz e quadro, permaneceu presente quer na administração central quer entre os orgãos de direcção pedagógica das escolas e tem-se sobreposto às orientações previstas nos programas. Esta imagem, que a sociedade também tem da Matemática, faz com que a reivindicação relativa a condições de trabalho e recursos para a sala de aula desta disciplina seja reduzida e difícil. Apesar desta situação, têm-se desenvolvido desde há vários anos, em muitas escolas, projectos de inovação que incluem a utilização de recursos diversificados (nomeadamente materiais manipuláveis e novas tecnologias) e a criação de espaços facilitadores do desenvolvimento dos projectos (como é o caso de Clubes e Laboratórios de Matemática). Para além disto, a discussão do ajustamento dos programas do ensino secundário contribuiu para colocar na ordem do dia o debate sobre os recursos e as condições necessárias para o ensino da Matemática. Nestes novos programas, os Laboratórios de Matemática são pela primeira vez referidos em documentos oficiais do Ministério da Educação. A comissão de acompanhamento dos novos programas do ensino secundário aprovou em Julho de 1997 uma proposta de tipologia para os Laboratórios de Matemática nas escolas do ensino secundário. No entanto, oficialmente, nada foi comunicado às escolas, e a divulgação do documento foi feita, no essencial, pela Associação de Professores de Matemática, através dos seus sócios. Até ao momento, apenas uma ou outra Direcção Regional de Educação tomou iniciativas pontuais (por exemplo, a distribuição pela DREL de um conjunto de calculadoras gráficas a todas as escolas da região respectiva) no sentido de dotar as escolas com equipamentos para o ensino da Matemática. Não se conhecem medidas concretas para que os Laboratórios, mesmo no ensino secundário, se tornem realidade. E, importa referir que, também nos 2º e 3º ciclos do ensino básico, é desejável a existência de espaços específicos para o ensino da Matemática do tipo dos Laboratórios de Matemática. No inquérito foi pedido aos professores dos 2º e 3º ciclos e ensino secundário que classificassem a disponibilidade dos recursos indicados na tabela 6.2, para o desenvolvimento do seu trabalho para as aulas de Matemática.
Tabela 6.2 - Classificação da disponibilidade de recursos
Analisando estes dados, é manifesta a opinião desfavorável dos professores relativamente à disponibilidade dos recursos. Repare-se que a classificação de insuficiente ou inexistente é quase sempre superior a 50%, atingindo no caso dos computadores 66% e no caso das calculadoras gráficas cerca de 75%. Uma análise por níveis de escolaridade das frequências com que cada um dos itens foi classificado pelos professores como insuficiente permite verificar que estes têm uma opinião muito desfavorável relativamente à existência de recursos materiais para a disciplina de Matemática, sendo esta tendência mais acentuada no 3º ciclo e no ensino secundário. A análise do gráfico 6.3 permite-nos observar que cerca de metade dos professores do 3º ciclo e do ensino secundário apresenta queixas relativamente à quantidade de calculadoras existentes nas escolas sendo este número de cerca de um terço no 2º ciclo. Os computadores são considerados muito insuficientes em qualquer dos ciclos, o mesmo acontecendo com as calculadoras gráficas. Relativamente aos materiais manipuláveis verifica-se que é no ensino secundário que os professores estão mais insatisfeitos e no 2º ciclo onde menos se faz sentir a sua falta. Estes resultados permitem, por exemplo, colocar a pergunta: porque será que, sendo natural o recurso mais sistemático a materiais manipulativos nos primeiros ciclos, é no ensino secundário que a sua falta é mais sentida? Do contacto com as escolas fica a ideia que esse resultado se deve mais ao processo de discussão que envolveu o ajustamento dos programas do ensino secundário, mobilizando os professores para a sua utilização, do que ao facto de escolas do 2º ciclo terem recursos suficientes.
Gráfico 6.3 Insuficiência de recursos por nível de escolaridade
Frequências de classificações de insuficiente atribuídas à disponibilidade de recursos específicos para o desenvolvimento do trabalho dos professores de Matemática
As reuniões realizadas nas escolas confirmam a escassez de recursos materiais destinados ao ensino da Matemática. Foram ouvidos comentários como: "não há computadores na escola, os retroprojectores estão em muito más condições e no 3º ciclo há ainda menos coisas" (EB 2/3), "temos 6 máquinas, outro dia a A... teve que deixar de usar na aula para eu usar" (ES), "não há calculadoras na escola, têm os professores e alguns alunos" (1º ciclo). Estas reuniões deixam ainda a ideia que a existência de livros específicos para a Matemática é rara, seja para os professores ou para os alunos. Na grande maioria das escolas visitadas, os livros existentes sobre Matemática eram apenas os manuais e não existiam revistas. No que se refere a outro tipo de material, algumas escolas referiram ter adquirido recentemente, por exemplo, calculadoras gráficas e viewscreen. No questionário do 1º ciclo foi perguntado aos professores quais os recursos que existiam na escola. Das suas respostas, verifica-se que apenas alguns tipos de materiais estão disponíveis na generalidade das escolas: os modelos de sólidos em 89%, instrumentos de desenho e/ou medida em 80% e material Cuisenaire em 72%. Dada a importância que a utilização de materiais tem neste nível de ensino, a situação parece ser de clara insuficiência. Seria de esperar que uma grande diversidade de materiais existisse em todas as escolas e tal não acontece. Por exemplo, os geoplanos, as peças multibásicas e os puzzles apenas são mencionados por cerca de metade dos professores, os computadores por 33% e as calculadoras por apenas 14%. Em algumas das reuniões efectuadas em escolas do 1º ciclo verificou-se que muitos dos materiais existentes eram construídos, trazidos de casa e por vezes até comprados pelos professores, e ainda noutros casos pedidos aos pais dos alunos. É interessante observar (gráfico 6.4) que, no 1º ciclo, uma percentagem elevada de materiais utilizados pelos alunos pertencem ao professor. Dos dados do inquérito destacamos os seguintes, que consideramos mais significativos: em cerca de 24% das escolas existem geoplanos pertencentes aos professores, esta percentagem é de 22% para os tangrans e de 24% no caso das calculadoras (enquanto apenas 14% das escolas as possuem).
Gráfico 6.4 Relação entre os recursos que existem na escola e os que pertencem ao professor (1º ciclo)
Embora haja neste momento em muitas escolas, nomeadamente secundárias, um número significativo de computadores, eles não estão disponíveis para as aulas de Matemática. Raras são as escolas que têm alguns computadores destinados à utilização na disciplina de Matemática, bem como software específico. As calculadoras, obrigatórias desde a entrada em vigor dos novos programas, também são praticamente inexistentes na generalidade das escolas. Esta escassez de recursos tecnológicos é um facto que se faz sentir quer através das respostas ao inquérito quer nas reuniões onde foi frequente ouvir referências do tipo "há várias salas com computadores para a leccionação de outras disciplinas que não incluem a Matemática" (ES), "não há calculadoras na escola, têm os professores e alguns alunos" (1º ciclo), "há um computador muito fraquinho" (1º ciclo). Relativamente aos recursos existentes para o ensino da Matemática, agrava a situação o facto do seu acesso nem sempre ser facilitado. Não existem, na generalidade das escolas, salas próprias para a disciplina e muitas vezes o grupo não dispõe sequer de um gabinete. Referências como as que se seguem foram frequentes nas reuniões realizadas: "Não há sala de Matemática nem de grupo", "Há um gabinete partilhado com Geografia onde também há aulas de apoio". Em algumas escolas, principalmente nas escolas secundárias, começa a falar-se em Laboratórios de Matemática. Numa das que foram visitadas havia um projecto nesse sentido "há uma sala de Matemática, um armário com materiais e um projecto de Laboratório" enquanto uma outra escola dispunha já de um Laboratório em funcionamento (um projecto individual de um professor do grupo). Foi feito sentir por alguns professores que, mesmo quando é possível disponibilizar uma sala para Matemática, isso é manifestamente insuficiente pois ela tem que ser ocupada a 100%, segundo um horário estabelecido, inviabilizando um trabalho continuado com as turmas, bem como a preparação de materiais por parte dos professores. A situação mais frequente ainda é a de existência de um armário colocado num local como uma sala de aula, um corredor, a sala de professores ou a biblioteca e onde está guardado o material disponível para a disciplina de Matemática. Em várias reuniões realizadas em escolas secundárias foram feitas referências a este aspecto: "a calculadora está guardada no Conselho Directivo", "há computadores na escola mas não são para Matemática", "há um armário próprio com livros e materiais manipuláveis mas está na biblioteca", "há poucos materiais mas os que existem estão dentro de um armário onde nem sempre é fácil chegar". Os professores de Matemática, para além de não terem à sua disposição recursos materiais indispensáveis ao ensino da disciplina, também não dispõem de um apoio local que facilite o esclarecimento relativo a orientações curriculares, a utilização de novos recursos, o desenvolvimento de novas metodologias ou o diagnóstico de problemas educativos e a elaboração de projectos de intervenção. A figura dos "acompanhantes locais", recentemente criados para o acompanhamento do novo programa do ensino secundário, poderá constituir uma primeira medida neste sentido, que é necessário aprofundar e alargar. Devem ser pois criadas estruturas de apoio local ao trabalho dos professores nos vários níveis de escolaridade e, de um modo especial, aos professores do 1º ciclo. Síntese e recomendações Podemos dizer que as condições de trabalho hoje existentes nas escolas são muito diversas mas em geral insatisfatórias. A existência de turnos e regimes duplos continua a condicionar de forma muito negativa o funcionamento das escolas e dos grupos disciplinares. Uma das consequências é a inexistência de horas livres comuns para que os professores do mesmo ano de escolaridade se possam encontrar para reflectir sobre actividades a desenvolver com alunos, planificar aulas, etc. A falta de equipamentos e recursos específicos para o ensino da Matemática é uma constante em todos os níveis de ensino, desde o 1º ciclo até ao ensino secundário. O número de livros e revistas de Matemática existentes nas bibliotecas ou centros de recursos escolares é extremamente reduzido. Para além disto, apesar de referidos nos programas dos diversos ciclos, praticamente não existem recursos tecnológicos destinados à disciplina de Matemática. Importa ainda dizer que as escolas não dispõem de espaços específicos para o ensino da Matemática, nem de gabinetes de trabalho para os professores. Também não existem estruturas, nem especialistas curriculares que possam, ao nível da escola ou de agrupamentos de escolas, apoiar o trabalho dos professores de Matemática. Relativamente ao 1º ciclo não existem ao nível do conselho escolar professores com formação e especialmente vocacionados para dinamizar o ensino da Matemática.
Neste ponto, recomendamos: 6.1 Deve ser posto em prática um plano de eliminação a curto prazo dos turnos e regimes duplos no funcionamento das escolas dos diversos níveis de ensino. 6.2 Deve ser consagrada nos horários dos professores do mesmo ano de escolaridade a existência de "horas livres" comuns para poderem trabalhar em conjunto na preparação e reflexão das aulas. 6.3 As escolas devem ser equipadas com recursos diversificados para o ensino-aprendizagem da Matemática, incluindo material didáctico, livros e revistas, e os grupos de Matemática devem dispor de recursos tecnológicos específicos para a sua actividade, nomeadamente, calculadoras e computadores. 6.4 As salas de aula e/ou centros de recursos de escolas do 1º ciclo do ensino básico devem ser equipados com materiais manipuláveis, calculadoras e computadores para o ensino-aprendizagem da Matemática. 6.5 Deve ser posto em prática um plano de criação de laboratórios de Matemática em todas as escolas dos 2º e 3º ciclos do ensino básico e do ensino secundário, com base em projectos apresentados pelas próprias escolas. 6.6 Devem ser criadas salas de trabalho para os professores nas escolas dos 2º e 3º ciclos do ensino básico e ensino secundário. 6.7 Devem ser criadas estruturas de apoio local aos professores dos diversos níveis de ensino (particularmente do 1º ciclo) e delegados de grupo, capazes de promover o esclarecimento das orientações curriculares e o aconselhamento relativamente ao diagnóstico de problemas educativos e à elaboração de projectos de intervenção. 6.8 Devem ser criados lugares de especialistas curriculares em todos os níveis de ensino professores especialmente preparados para a dinamização dos aspectos relacionados com o ensino da Matemática. |
|||||||||||||||||||||