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Este ponto incide sobre as práticas dos professores num contexto fora da aula curricular normal, analisando essas práticas no que se refere ao apoio pedagógico acrescido, à área-escola e a actividades extra-curriculares.
Apoio pedagógico acrescido O apoio pedagógico acrescido visa proporcionar aos alunos com dificuldades de aprendizagem do ensino básico e secundário uma oportunidade de recuperação na disciplina de Matemática. Com base no inquérito realizado, pode dizer-se que os professores, de um modo geral, propõem cerca de 31% dos seus alunos para este tipo de apoio, o que corresponde a uma percentagem muito significativa. A percentagem de alunos propostos cresce ligeiramente com a progressão dos níveis de escolaridade (26% no 2º ciclo, 32% no 3º e 38% no ensino secundário). Pode ainda afirmar-se que a grande maioria dos professores (87%) já deu aulas de apoio pedagógico acrescido e que percentagem de professores com experiência destas aulas diminui ligeiramente com os níveis de escolaridade (94%, 88% e 78%). Como se depreende da tabela 4.1, para a grande maioria dos professores que dão aulas de apoio pedagógico, o traço mais distintivo desta actividade é o apoio individualizado aos alunos (68% das referências feitas pelos professores do 2º ciclo, 53% do 3º, 71% do ensino secundário). Apenas uma pequena minoria de professores afirma utilizar estratégias alternativas como actividades lúdicas, metodologias de ensino específicas, orientação para o uso de métodos de trabalho, recurso a materiais didácticos específicos e materiais manipuláveis ou uso do trabalho de grupo (13% das referências feitas pelos professores do 2º ciclo, 10% do 3º ciclo e 5% do ensino secundário).
Tabela 4.1 Estratégias para o apoio pedagógico acrescido
Nota: A tabela contém as percentagens das referências dos professores a cada uma destas ênfases em relação ao número total de referências produzidas. Ainda relativamente ao apoio pedagógico acrescido, foi pedido aos professores que indicassem três sugestões. A grande maioria das sugestões provém dos professores dos 2º e 3º ciclos do ensino básico e, sobretudo, dos do 2º ciclo. Na tabela 4.2 apresentam-se as que se encontraram mais frequentemente em cada um dos três ciclos. A par de alguma diversidade nas sugestões dadas nos diferentes ciclos pode constatar-se também alguma uniformidade, particularmente entre as três sugestões mais frequentes, onde surgem destacadas a necessidade de turmas com menor número de alunos e a conveniência do professor que dá o apoio pedagógico acrescido aos alunos ser o mesmo que dá as aulas curriculares normais. Ainda nos três ciclos, é também chamada a atenção para a necessidade de alguma especificidade nas aulas de apoio pedagógico acrescido quer através da utilização de actividades mais interessantes (2º ciclo), da individualização desse apoio (3º ciclo e ensino secundário) ou da utilização de salas com material específico para esse fim (ensino secundário). Entre os professores dos 2º e 3º ciclos há outras sugestões relativamente frequentes como: um maior número de horas destinadas a apoio pedagógico acrescido, maior selecção dos alunos que são propostos para esse apoio e maior homogeneidade na constituição de turmas ou grupos desses alunos.
Tabela 4.2 Sugestões para o apoio pedagógico acrescido (valores absolutos por ciclo)
Nota: Sugestões mencionadas com uma frequência igual ou superior a 10.
As reuniões efectuadas nas escolas reforçam o que foi dito sobre o apoio pedagógico acrescido. Permitem ainda acrescentar que o apoio pedagógico, em muitas situações, é limitado, funciona com dificuldades e é efectuado em condições que os professores reconhecem não serem as melhores. O panorama relativamente a este tipo de apoio nas escolas secundárias é, na verdade, pouco encorajador. Em alguns casos ele não se realiza porque os professores não querem horas extraordinárias ou porque a escola deu outro destino ao crédito em horas disponível para a sua realização. Quando existem apoios, eles, de um modo geral, parecem seguir de muito perto os conteúdos e os métodos das aulas normais. O balanço geral é pouco animador: "eu acho que não tem efeitos positivos", disse-se, por exemplo, numa reunião. Por vezes as escolas têm iniciativas de criação de salas de estudo onde os professores tiram dúvidas aos alunos ou instalam meios (fichas de trabalho, computadores) para promover a auto-aprendizagem. Mas os alunos não aderem muito a estas actividades e a sua assiduidade tende a ser baixa. Como disse um professor: "quando eu ia assinar o livro via só: faltou aluno, faltou aluno, faltou aluno". Nas escolas básicas, o panorama relativo ao apoio pedagógico acrescido parece bastante mais favorável. Há mais apoios a funcionar e há referência a casos considerados muito positivos. Em várias escolas do 1º ciclo há um professor de apoio cuja acção é considerada bastante valiosa. Já o apoio ao ensino especial parece não funcionar tão bem (principalmente por falta de coordenação com o professor da turma). Numa escola há uma sala de apoio permanente. Nas escolas básicas 2/3 há também referência a salas de estudo que são bastante frequentadas e têm bons resultados. Uma escola introduziu mesmo um sistema de alunos-monitores nas salas de estudo que se revelou um assinalável sucesso.
Área-escola A área-escola constitui um espaço de trabalho instituído nos novos planos de estudo dos ensinos básico e secundário (Decreto-Lei 286/89) com o objectivo de promover a ligação entre as várias disciplinas. Das respostas obtidas ao inquérito (tabela 4.3), conclui-se que a participação mais habitual da Matemática na área-escola diz respeito ao uso da Estatística, incluindo a construção de gráficos e tabelas (57% das referências feitas pelos professores do 2º ciclo, 73% do 3º ciclo e 81% do ensino secundário). Segue-se o uso de conceitos ou técnicas com forte cunho geométrico, tais como unidades de medida, área, perímetro, volume, distância e sólidos no 2º ciclo (27%), áreas, volumes, semelhanças, lugares geométricos, transformações geométricas e sólidos no 3º ciclo (12%) e transformações geométricas, geometria analítica e trigonometria no ensino secundário (8%).
Tabela 4.3 Temas de Matemática na área-escola
Nota: Esta tabela contém as percentagens das referências feitas pelos professores relativamente a cada um dos temas em relação ao número total de referências produzidas.
Nas reuniões realizadas nas escolas secundárias verifica-se que os professores têm, de um modo geral, uma opinião muito negativa em relação à área-escola. Como disse um professor: "eu nunca tive nenhuma experiência de área-escola que considerasse muito positiva". Mesmo quando acham a ideia boa consideram que, na prática, não tem funcionado. Foi referida a dificuldade em arranjar tempo e temas que motivem os alunos. Alguns professores afirmam não saber como elaborar projectos para a área-escola e acham que esta actividade tende cada vez mais a reduzir-se a passeios e festas. Foi também referido que os projectos, quando existem, habitualmente não são concluídos. Há dificuldade em reunir com os colegas para planear e articular actividades e a área-escola envolve muito trabalho suplementar. Em muitas escolas considera-se que a área-escola desapareceu ou nunca existiu. Há muitos professores que dizem não ter tempo sequer para dar o programa, quanto mais para a área-escola: "há uma desmotivação muito grande, ia perder aulas, não consigo dar o programa, com turmas fraquérrimas". Há também resistência por parte dos alunos. No entanto, há também professores que referem experiências positivas. Quanto ao futuro, surgem principalmente duas opiniões. Há quem ache que a área-escola deva deixar de ser obrigatória, passando para a esfera do extra-curricular. Também há quem defenda que deva passar a ter um espaço próprio como área curricular constando no horário de professores e alunos. No ensino básico encontraram-se igualmente algumas experiências positivas mas o balanço geral é bastante negativo, sendo considerada uma perda de tempo por muitos professores. Tal como no secundário, os professores indicam ter dificuldade em encontrar tempo para trabalhar com os alunos e em fazer a planificação com os colegas. Em alguns casos, tal como no ensino secundário, a área-escola não existe. Mas também há professores que acham que a área-escola devia ser obrigatória. No 1º ciclo, e devido à sua própria especificidade, as actividades da área-escola são, de alguma forma, sempre incluídas na prática lectiva dos professores. De facto, a introdução desta área veio enquadrar algumas actividades e projectos que já eram habituais. A área-escola tem constituído, em muitos casos, uma actividade paralela às actividades de cada uma das disciplinas. Os professores não sentem apoio por parte dos responsáveis e, passado algum tempo, mesmo os mais entusiastas deixaram de investir. Os alunos sentem-na também como algo extra que não tem nada a ver com o normal funcionamento das aulas, nem tem peso na avaliação e, ainda por cima, funciona em contra-horário. Não se sentindo valorizados por participar nas actividades da área-escola, desmotivam-se e deixam de aparecer. Por outro lado, desenvolver um projecto demora tempo, exige esforço e requer dedicação. Ou alunos e professores se sentem motivados para isso e são capazes estabelecer relações com os objectivos dos programas ou, não havendo tempo para tudo, optam por cumprir o que consideram ser os objectivos do programa e esquecer a área-escola.
Actividades extra-curriculares Os professores foram inquiridos acerca da frequência com que participam em actividades e realizações de natureza extra-curricular. De uma lista de possíveis actividades (tabela 4.4), os professores indicam participar muitas vezes ou sempre ou quase sempre sobretudo nas Olimpíadas da Matemática. Actividades como a Semana ou Dia da Matemática e o Problema da semana ou da quinzena têm também alguma expressão. Os Clubes e Laboratórios de Matemática têm uma relevância reduzida em todos os níveis de ensino.
Tabela 4.4 Participação muito frequente em actividades/realizações extra-curriculares
Nas reuniões nas escolas secundárias, os professores referem bastante a sua participação nas Olimpíadas da Matemática mas por vezes com pouco entusiasmo: "não há muita participação porque as coisas chegam um pouco à última da hora". A sua reduzida participação noutras realizações deve-se à grande quantidade de dificuldades a ultrapassar, ao muito trabalho requerido e aos problemas de compatibilização com as provas globais: "estas coisas aparecem sempre no final do 3º período e agora temos a novidade das provas globais que andamos nessa altura tão loucos que não estamos muito motivados...". Há alguns professores envolvidos em projectos, mas em geral dirigidos de fora da escola ou com pouca participação de alunos. Segundo alguns professores, os alunos muitas vezes aderem pouco a estas realizações. Nas escolas básicas 2/3 o panorama não é muito diferente. Há bastantes referências às Olimpíadas, mas os alunos não parecem muito motivados. Há, por vezes, outras actividades, mas funcionando de modo pouco continuado e sempre com muitas dificuldades. As escolas do 1º ciclo parecem prestar mais atenção a este aspecto da vida escolar. Há vários casos de professores com experiência de participação em projectos e de organização de actividades para os alunos como ateliers, jogos, baú da Matemática e visitas de estudo.
Síntese e recomendações Torna-se manifesto que o Apoio pedagógico acrescido corresponde a uma necessidade importante dos alunos, mas constitui presentemente um mecanismo pouco aproveitado e que merece pouca adesão dos professores. Trata-se de um domínio onde as escolas poderiam assumir responsabilidades muito mais significativas, adaptando um crédito em horas e recursos humanos e materiais às suas necessidades e especificidades, no quadro de um sistema de diagnóstico de problemas e de avaliação das estratégias implementadas e dos resultados obtidos. As escolas poderiam optar, por exemplo, pela criação de salas de estudo e centros de atendimento de alunos, pelo reforço de espaços como os seus centros de recursos. Já não parece adequado que possam transformar esses mesmos créditos em verbas a utilizar em actividades que não têm ligação directa com o apoio aos alunos com dificuldades de aprendizagem ou de inserção escolar. Quanto à área-escola, existem diversas experiências positivas que mostram exemplos da Matemática aberta a outras áreas do saber e capaz de com elas dialogar, e encontram-se aqui e ali professores com posições favoráveis em relação a este tipo de trabalho. No entanto, no geral, a área-escola é vista com pouco entusiasmo ou é mesmo inexistente. O balanço é francamente negativo no ensino secundário e mesmo no básico. Foram apontados diversos obstáculos e dificuldades, nomeadamente, o que parece ser uma certa indefinição da área e a sua difícil articulação com os programas das disciplinas, assim como dificuldades de tempo, de apoio e de carácter organizativo, em particular no que se refere ao planeamento, coordenação e articulação das actividades. Deste modo, parece ser de toda a pertinência a sua substituição, tanto no ensino básico como no ensino secundário. Dada a importância de valorizar um espaço para a concretização da interdisciplinaridade e a realização de trabalhos de projecto, a solução poderá ser a de a substituir por uma área curricular com horário próprio, com o concurso de professores de diversas áreas, desempenhando um papel nuclear na concretização do projecto educativo da escola. Apesar das dificuldades, trata-se de uma área em que as autoridades educativas deveriam investir e que poderia constituir, por um lado, uma forma de dinamizar os professores nas escolas e, por outro, um bom meio para fornecer aos alunos uma ideia mais globalizante da aprendizagem. Finalmente, é de referir que o trabalho extra-curricular desempenha um papel importante na escola, permitindo um conhecimento diferente entre os diversos actores educativos e visando objectivos educativos fundamentais. Por isso, deve ser revalorizado, promovendo-se uma ampla participação dos professores em projectos e actividades diversas de carácter cultural, enquadradas pelo projecto pedagógico do grupo de Matemática de cada escola.
Neste ponto recomendamos: 4.1 O actual sistema de apoio pedagógico acrescido deve ser revisto no seu funcionamento, cabendo às escolas a responsabilidade de estudar os melhores meios de o usar e adaptar às suas necessidades, introduzindo mecanismos de avaliação e regulação da sua actividade e dos seus resultados, nomeadamente criando condições institucionais tempo, horários compatíveis, designação dos professores e organizativas tempo, constituição dos grupos de alunos/turmas a propor para apoio. 4.2 Para o apoio pedagógico acrescido deve ser proporcionada formação aos professores sobre diagnóstico de dificuldades de aprendizagem e a utilização de estratégias diversificadas de ensino-aprendizagem, valorizando a consideração de métodos diferenciados de trabalho de forma a corresponder melhor às necessidades e interesses dos alunos que os frequentam. 4.3 A área-escola deve ser substituída, tanto no ensino básico como no ensino secundário, por uma área curricular com horário próprio, orientada para a interdisciplinaridade e realização de trabalhos de projecto, com o concurso de professores (de diversas áreas) preparados para esta actividade, de forma a ter um papel significativo na concretização do projecto educativo da escola. 4.4 O trabalho extra-curricular deve ser valorizado, promovendo-se a participação de professores em projectos e actividades de carácter cultural como clubes, dias e semanas da Matemática, jornais de Matemática, exposições e concursos de problemas e de actividades de investigação, no quadro do projecto pedagógico do conselho escolar ou do grupo de Matemática de cada escola. |
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