(Continuação)

 

A recolha e sistematização de dados oficiais diz respeito a aspectos como a qualificação dos professores de Matemática e o insucesso escolar dos alunos nesta disciplina, enquanto a organização de bibliografia e documentação relevante se centrou em quatro domínios considerados especialmente relevantes: a gestão escolar, a estrutura curricular, a formação de professores e o sistema de avaliação. Para cada um destes domínios foi elaborado um texto com o propósito de enquadrar todo o trabalho do grupo e ainda apoiar a dinamização de debates mais alargados em diversas sessões realizadas nos encontros nacionais anuais da APM, os ProfMat.
As reuniões foram realizadas num conjunto de escolas de vários tipos (do 1º ciclo, básicas 2/3, básicas integradas 1/2/3, secundárias com e sem 3º ciclo) e das várias regiões do país, com os professores do Conselho Escolar respectivo (no caso do 1º ciclo) ou com os professores do grupo de Matemática (no caso dos outros ciclos do ensino básico e do ensino secundário). Assumiram a forma de entrevistas colectivas, a partir de um guião previamente definido, tendo sido gravadas e posteriormente transcritas e analisadas. Realizaram-se cerca de três dezenas de reuniões noutras tantas escolas do continente e das regiões autónomas.
No que diz respeito ao inquérito, seguiu-se um processo distinto no 1º ciclo e nos restantes níveis de ensino. Assim, foi concebido um inquérito para os professores do 2º ciclo, do 3º ciclo e do secundário que inclui cerca de 40 itens e está dividido em quatro secções: dados pessoais e situação na profissão; práticas pedagógicas; condições de trabalho; formação. A amostra foi construída, a nível do território do continente, de um modo aleatório mas respeitando a proporção entre professores profissionalizados e não profissionalizados. O inquérito foi enviado em princípios de Maio de 1997 a 1070 professores, tendo sido recebidas 443 respostas (161 do 2º ciclo, 128 do 3º ciclo e 154 do secundário), provenientes de escolas situadas em 125 concelhos diferentes. Seguiu-se o processo de organização e tratamento estatístico dos dados.
No caso dos professores do 1º ciclo, trabalhou-se em colaboração com o IIE, tendo-se incluido diversos itens num questionário que o Instituto tinha já em preparação a propósito das provas de avaliação aferida. Foram recebidas 456 respostas.
O relatório preliminar foi amplamente divulgado em Março de 1998. A APM organizou então um conjunto de discussões públicas em escolas de diversas zonas do país e em encontros promovidos pelos núcleos regionais da Associação. Destas várias sessões foram elaboradas actas que, em conjunto com os contributos individuais e de grupos de professores entretanto recebidos, constituiram o material para uma nova reflexão do grupo e para a introdução no relatório de diversas alterações, sobretudo ao nível das recomendações. Este processo conduziu ao relatório final que agora se apresenta.

Em que pressupostos se baseiam as recomendações do Matemática 2001?
A análise dos dados recolhidos permitiu-nos traçar um diagnóstico relativamente às práticas pedagógicas, às condições de trabalho nas escolas e à formação, o qual procura reflectir acima de tudo as informações fornecidas e os pontos de vista expressos pelos professores.
A discussão dos aspectos mais críticos deste diagnóstico conduziu à elaboração de recomendações, num processo em que o quadro de referência que guiou o grupo foi o conjunto de grandes orientações traçadas no documento "Renovação do Currículo de Matemática", editado pela APM em 1988, nomeadamente:
o o ensino da Matemática deve orientar-se para uma valorização dos objectivos que dizem respeito a capacidades — de resolução de problemas e de raciocínio matemático — e de atitudes positivas relativamente à Matemática;
o o programa, tal como os manuais, deve constituir um instrumento de trabalho nas mãos do professor e dos alunos para orientar a actividade matemática na sala de aula, e não ser visto como uma sequência de tópicos e de prescrições para transmitir aos alunos;
o o elemento central da renovação do ensino da Matemática deve ser a alteração da natureza das tarefas dominantes na sala de aula, na perspectiva de valorização das actividades de resolução de problemas e de investigação e de situações que envolvam os alunos em processos de pensamento matemático e comunicação;
o o professor desempenha um papel central e insubstituível na renovação do ensino da Matemática, pelo que deve ser dada prioridade à sua formação e à criação de condições favoráveis ao seu desenvolvimento profissional;
o as condições na escola — recursos materiais, espaços de trabalho, horas para trabalho dos professores entre si e com alunos — devem ser consistentes com as orientações curriculares preconizadas e adequadas à importância do ensino da Matemática.
Face aos aspectos mais salientes que o diagnóstico revelou, as recomendações do Matemática 2001 procuram apontar caminhos para se reduzir a distância entre a situação real e estas orientações — uma distância que é ainda muito grande em diversos pontos, não obstante as mudanças operadas nos últimos anos. São recomendações que se destinam, conforme os casos, aos professores, às escolas e territórios educativos, às instituições de formação e às autoridades educativas. Têm um carácter genérico, uma vez que o modo de as concretizar depende de decisões que cabem, em cada caso e lugar, às pessoas e entidades responsáveis.

Como está organizado o relatório final do Matemática 2001?
O relatório está dividido em oito pontos. O primeiro apresenta um conjunto de dados com o propósito de contextualizar a situação, focando os resultados obtidos pelos alunos e as características do grupo profissional dos professores de Matemática. Os seis seguintes (2 a 7) são dedicados às três grandes áreas do estudo: práticas pedagógicas, condições de trabalho e formação de professores:
o os pontos 2 a 5 tratam as práticas pedagógicas, focando respectivamente as concepções dos professores (ponto 2), as práticas na sala de aula (3), as práticas extra-lectivas (4) e as práticas profissionais (5);
o o ponto 6 diz respeito às condições de trabalho;
o o ponto 7 é dedicado à formação dos professores.
Em cada um destes pontos, apresenta-se uma análise da situação que se baseia nos dados recolhidos através do inquérito e das reuniões nas escolas, e que tem ainda em conta diversas estatísticas oficiais, legislação relevante e literatura existente sobre o tema respectivo. Deste modo, procura-se traçar um quadro diagnóstico da situação relativamente a cada um dos temas considerados, ao qual se segue a apresentação de um conjunto de recomendações. Relativamente à versão anterior (preliminar) do relatório, algumas recomendações foram alteradas e outras foram acrescentadas, como resultado da discussão alargada com os professores.
Finalmente, no ponto 8, o relatório retoma genericamente o conjunto de recomendações feitas e aponta sugestões relativamente ao papel que a APM pode continuar a desempenhar na procura de uma efectiva melhoria do ensino da Matemática.

E depois do Matemática 2001?
O Matemática 2001 constituiu uma iniciativa de investigação sobre a situação do ensino da Matemática em Portugal mas procurou ser também um factor de dinamização do debate entre os professores. Ao contrário do que sucede em geral com os estudos de natureza académica, não só resultados parciais do estudo foram sendo divulgados em diversas fases do processo como as discussões públicas intermédias influenciaram o próprio desenvolvimento do estudo.
Com efeito, em Novembro de 1996, no ProfMat de Almada, o projecto do Matemática 2001 foi apresentado na primeira sessão plenária e alguns grupos de discussão foram organizados em torno de documentos de trabalho do grupo, por exemplo do guião que mais tarde orientaria as entrevistas colectivas realizadas nas escolas. Um ano mais tarde, no ProfMat da Figueira da Foz, a sessão plenária de abertura foi dedicada à apresentação dos primeiros resultados do estudo quando o processo de análise dos dados ainda estava no início e, novamente, grupos de discussão foram dinamizados por elementos do grupo. Ao longo destes dois anos, também em encontros regionais da APM, o Matemática 2001 constituiu o tema de diversos tipos de sessões de trabalho.
Esperamos que este movimento não termine com a publicação do relatório final do estudo. Desejamos, pelo contrário, que o relatório do Matemática 2001 seja um instrumento de trabalho útil às estruturas nacionais e regionais da APM na sua tarefa de planeamento das acções a desenvolver num futuro próximo e, de um modo mais geral, que ele contribua para dinamizar a reflexão e o debate entre os professores de Matemática sobre o que há a fazer para a melhoria do ensino da nossa disciplina.
Foi com este propósito que procurámos sintetizar no último ponto do relatório um conjunto de sugestões de medidas a tomar cuja concretização depende naturalmente da decisão dos diversos intervenientes — os professores, as escolas, as instituições de formação, a administração — e ainda de propostas de trabalho para a acção da própria APM, em domínios que identificámos como prioritários: o currículo oficial, a gestão curricular, os manuais escolares, a avaliação e as práticas profissionais dos professores.


Novembro de 1998
Grupo de Trabalho Matemática 2001
Associação de Professores de Matemática

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